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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Coquetel Molotov 

O que é certo e errado? Um conceito é verdadeiro por ser aceito pela maioria? Qual o limite entre convicção e fanatismo? O que diferencia um herói de um louco? Os fins justificam os meios? Em alguns filmes, perguntas assim são facilmente respondidas. Mas de vez em quando surgem produções que causam polêmica justamente por colocar tais questões num cinza nebuloso mais difícil de digerir do que os tradicionais tons de preto e branco. Para colocar lenha nessa fogueira, chega às telonas brasileiras V de Vingança.

Situada em 2020, a trama é ambientada numa Inglaterra dirigida com mão de ferro por um chanceler absolutista. Os cidadãos vivem apavorados, já que qualquer deslize é motivo para uma prisão seguida de desaparecimento. A jovem Evey Hammond é apenas uma dessas pessoas que passa seus dias em silencioso terror. Numa noite em que se atrasa para o toque de recolher, Evey fica à mercê da truculência de dois agentes do governo. Ela é salva de um destino de estupro e morte por um homem mascarado, que se apresenta apenas como "V" e luta contra os malfeitores com incrível destreza e elegância. Logo Evey descobre que está em apuros, pois o desconhecido que tanto lhe interessou tem planos mirabolantes para derrubar o governo e incitar o povo à rebelião.

O fascinante em Evey é que ela contraria o já esperado estereótipo de namoradinha do protagonista. Ela não é uma peça decorativa a ser manipulada por V ou seus detratores e sim uma cidadã que passa por um processo de tomada de consciência. Enquanto tenta descobrir quem é aquele mascarado, Evey acaba por descobrir a si mesma. A seqüência que culmina com a personagem tendo os cabelos raspados é de um simbolismo muito claro: nasce ali uma nova pessoa, despojada do medo e renovada pela esperança de ter encontrado papel ativo num mundo onde estava acostumada a ser mera espectadora. Donde se conclui que é Evey a verdadeira protagonista.

Tão logo V de Vingança estreou nos EUA, as revistas Time e Newsweek e o jornal New York Times cerraram fileiras para fazer patrulha ideológica contra o filme, por considerarem seu enredo simpático ao terrorismo. A imprensa americana ficou especialmente chocada com a cena em que V diz que "explodir um prédio pode mudar o mundo". Ora, a trama não é situada numa sociedade democrática e sim num regime totalitário em que o povo é privado de toda e qualquer liberdade individual e o livre pensamento é punido com a morte. Criticar as intenções do filme sem considerar a ambientação é, no mínimo, tendencioso. Tal método de julgamento levaria a classificar os líderes da Revolução Francesa como meros terroristas também.

V de Vingança é baseado numa graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, lançada nos anos 80 como uma crítica ferina ao governo conservador de Margareth Tatcher. A história também guarda forte semelhança com 1984, célebre romance do também inglês George Orwell escrito no final dos anos 40 que profetizava um futuro onde os cidadãos eram vigiados sem descanso e uma mera fisionomia de contrariedade equivalia a uma condenação - o romance cunhou a hoje deturpada expressão Big Brother.

Os irmãos Wachowski, diretores da trilogia Matrix e autores do eficiente roteiro, convidaram seu antigo assistente James McTeigue para assumir a direção desta produção que custou US$ 50 milhões. Uma soma bem razoável para o porte grandioso do longa, ainda mais se considerarmos o talentoso elenco. A escolha do australiano Hugo Weaving foi fundamental para a credibilidade de um personagem como V, que um ator menos habilidoso poderia tornar risível. Como aparece o tempo inteiro coberto pela máscara e roupas pesadas, era preciso alguém que conseguisse se expressar apenas com a voz e a linguagem corporal. E, a despeito dessas limitações, a presença de Weaving em cena é simplesmente magnética. Natalie Portman, que cada vez mais se distancia do perfil de menina-prodígio para se firmar como uma atriz talentosa e ousada, também tem atuação marcante como Evey. O filme ainda se dá ao luxo de ter caras como John Hurt, Stephen Rea e Stephen Fry como coadjuvantes.

V de Vingança é um bem-sucedido casamento de ficção científica, aventura e filosofia. Aliás, o filme não tem tantas cenas de ação como se poderia supor. Pode-se dizer que há mais tensão do que ação, já que a discussão ideológica nunca deixa de estar em primeiro plano - qualidade presente no Matrix original e que se diluiu nas seqüências.

O espectador mais atento vai estranhar a ausência do nome de Alan Moore nos créditos (apenas David Lloyd é citado). A explicação é simples: o cartunista se desentendeu com a Warner e exigiu que seu nome fosse eliminado de tudo, se recusando até mesmo a receber os royalties que lhe eram devidos. Moore costuma detestar as adaptações de suas histórias. No caso do sofrível A Liga Extraordinária, com toda razão. Mas, no caso de V de Vingança, parece que o autor se precipitou.

 
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