Das centenas de filmes exibidos todos os anos no Festival do Rio, certamente os que passam na Mostra Mundo Gay - seja lá qual for o critério usado para definir o que seria um filme restrito ao público gay - são os mais prejudicados em termos de circuito. Dos treze filmes exibidos na edição 2004, doze continuam inéditos (a exceção foi o espanhol "Filhote"). Na Mundo Gay 2005, destacava-se uma produção com o curioso título de Transamerica. Chamava a atenção sobretudo por trazer a atriz Felicity Huffman, famosa por conta do seriado "Desperate Housewives", no papel de um transexual. Mas a trajetória deste filme independente e de baixíssimo orçamento (US$ 1 milhão, quantia irrisória para os padrões americanos), estava apenas começando. Para espanto geral, Felicity Huffman foi indicada ao Oscar de melhor atriz e ainda levou o Globo de Ouro na mesma categoria.
Felicity interpreta Bree Osbourne, um transexual de Los Angeles que acaba de adquirir a tão aguardada autorização para a cirurgia que a transformará definitivamente numa mulher. Uma semana antes de realizar seu sonho, ela recebe um telefonema do juizado de menores de Nova Iorque e descobre ter um filho de dezessete anos, fruto de seu único relacionamento heterossexual. A mãe do rapaz está morta e ele está envolvido com drogas e prostituição. A contragosto e forçada pelas circunstâncias, Bree vai ao encontro do filho e logo percebe que ele está obcecado em encontrar esse pai de quem só ouviu falar. Obviamente, não tem coragem de revelar quem é e se apresenta como uma missionária religiosa para convencê-lo a seguir viagem com ela de volta a Los Angeles.
A performance de Felicity Huffman é algo muito complexo de descrever. Só mesmo assistindo ao filme é possível apreciar e compreender as nuances interpretativas desta talentosa atriz. Afinal de contas, trata-se de uma mulher no papel de um homem que está se transformando em mulher. E Felicity tem os movimentos de alguém que se esforça para ter um determinado comportamento, uma feminilidade meticulosamente estudada. Alguém treinado para ser delicado, mas que precisa policiar modos, trejeitos e, principalmente, a voz. Uma interpretação inesquecível! O espectador mais atento também não vai deixar de notar a beleza e sensibilidade do jovem Kevin Zegers na pele do rebelde e carente Toby. O rapaz tem futuro.
O humor inteligente do roteiro valoriza ainda mais a interpretação precisa do ótimo elenco, com destaque para a dupla central e também para a ótima Fionnula Flanagan como a insuportável mãe de Bree. Os diálogos são carregados de fina ironia, como na impagável cena em que Bree quer evitar dizer com todas as letras que teve um filho quando ainda era um homem: "Ontem eu recebi um telefonema de alguém que dizia ser filho de Stanley", ao que sua esperta terapeuta a censura pelo subterfúgio: "Sem terceira pessoa". Ou a resposta de Bree quando Toby joga na sua cara que a casa dos pais dela é mais bacana que a sua: "A casa dos meus pais vem com eles dentro".
Mas Transamerica não se limita a ser um veículo para seus atores brilharem. Por trás da divertida e irreverente embalagem de road movie há um poderoso e multifacetado drama. E, felizmente, a história consegue tratar de conflitos fortes sem cair na pieguice ou no tom de fábula moral. Bree e Toby são personagens em busca de autoconhecimento e não de uma redenção forçada. Pai e filho que têm muito em comum, mas não do jeito que se espera. E que acabam por criar seus laços de parentesco da maneira que sabem e entendem, provando que respeito mútuo e afeto não têm que necessariamente ser ditados pela cartilha do tradicional american way of life. Um empolgante libelo à tão decantada liberdade que a América costuma apregoar muito e praticar cada vez menos.
Uma curiosidade: trata-se do primeiro longa do diretor e roteirista Duncan Tucker, que desenvolveu a trama inspirado no seu próprio espanto quando uma amiga de muitos anos lhe confidenciou que havia nascido homem.