Na Alegria e na Tristeza
Ninguém pode acusar
Sr.
e Sra. Smith de não ser o que parece. Tanto o trailer
quanto os cartazes de Brad Pitt e Angelina Jolie em tamanho
natural que vêm enfeitando os cinemas deixam bem claro
que esta adaptação da série de mesmo
nome (exibida na TV americana em 1996) é, em primeiro
lugar, um veículo para os astros. Na telona, o casal
mais deslumbrante de Hollywood interpreta John e Jane Smith,
assassinos de aluguel que são casados e desconhecem
o modo como o cônjuge ganha o pão de cada dia.
Após alguns anos de vida em comum - cinco, segundo
ele; seis, segundo ela -, o casamento está por um fio.
Mas o tédio entre quatro paredes vira adrenalina quando
um acaba virando o alvo do outro. A esta altura, você
deve estar com a sensação de que já viu
esse filme. E viu mesmo, já que a história parece
um cruzamento de "A Honra do Poderoso Prizzi" com
True
Lies. Só que sem a classe do primeiro e o ritmo
do segundo. E ainda tem uma ensandecida seqüência
em que os dois destróem a casa inteirinha... bem parecida
com "A Guerra dos Roses". Pois é, as referências
estão decaindo...
Mas, apesar da criatividade zero do argumento,
Sr.
e Sra. Smith não é o desastre que poderia
se esperar. Os diálogos são bem cuidados, tirando
partido de aplicar as queixas costumeiras de um casal ao inusitado
da situação. Um bom exemplo é quando
o Sr. Smith faz a clássica pergunta "quantos foram?", se
referindo a assassinatos e não a parceiros sexuais.
Ou quando tenta magoá-la dizendo que sua pontaria é
tão ruim quanto sua comida. O destaque fica por conta
das espertas seqüências de abertura e final, com
o casal tentando resolver suas pendengas com um terapeuta.
O duplo sentindo entre o que eles dizem e o que querem realmente
dizer é um achado do roteiro.
É uma pena que o resto do filme não esteja à
altura. O "miolo" carece de ritmo e peca pelo excesso de pirotecnia,
privilegiando tiros e explosões ao invés de
explorar as tiradas irônicas e a boa química
do casal. A direção de Doug Liman (de
A
Identidade Bourne) é burocrática e insossa,
a fotografia não merece destaque e os efeitos especiais
são apenas corretos. Contudo, o filme tem um grande
acerto: não se levar muito a sério, resvalando
bastante para a comédia e até mesmo flertando
com o humor negro.
Vale ressaltar que o grande mérito por manter a atenção
do espectador é o carisma de seus astros. A trilogia
Indiana Jones já ensinou o caminho das pedras: um filme
de ação não pode prescindir de um herói
repleto de charme e bom humor para conquistar a simpatia da
platéia. E aqui temos dois. De um lado do ringue, Brad
Pitt com mais um corte de cabelo estranho, como a querer provar
para o mundo que não precisa de seus cabelos louros
para ser bonito. O que é verdade, já que o cara
está lindo como nunca. E, felizmente, atuando de uma
maneira irreverente e deliciosa, anos-luz da performance preguiçosa
apresentada em
Tróia.
Do outro lado, todo o peso da beleza surreal de Angelina Jolie.
Ela, aliás, já provou que consegue carregar
um filme nas costas ao protagonizar as duas aventuras da série
"Lara Croft". Percebe-se que ela está totalmente
à vontade, com sua bocona sempre pronta para soltar
uma observação maliciosa.
Noves fora, Pitt e Jolie nos distraem tanto enquanto fazem
o amor e a guerra que acabamos esquecendo da falta de consistência
do filme. Só fica meio difícil distinguir onde
terminam os tapas e começam os beijos, já que
eles se espancam e se amam com igual intensidade.