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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Na Alegria e na Tristeza

Ninguém pode acusar Sr. e Sra. Smith de não ser o que parece. Tanto o trailer quanto os cartazes de Brad Pitt e Angelina Jolie em tamanho natural que vêm enfeitando os cinemas deixam bem claro que esta adaptação da série de mesmo nome (exibida na TV americana em 1996) é, em primeiro lugar, um veículo para os astros. Na telona, o casal mais deslumbrante de Hollywood interpreta John e Jane Smith, assassinos de aluguel que são casados e desconhecem o modo como o cônjuge ganha o pão de cada dia. Após alguns anos de vida em comum - cinco, segundo ele; seis, segundo ela -, o casamento está por um fio. Mas o tédio entre quatro paredes vira adrenalina quando um acaba virando o alvo do outro. A esta altura, você deve estar com a sensação de que já viu esse filme. E viu mesmo, já que a história parece um cruzamento de "A Honra do Poderoso Prizzi" com True Lies. Só que sem a classe do primeiro e o ritmo do segundo. E ainda tem uma ensandecida seqüência em que os dois destróem a casa inteirinha... bem parecida com "A Guerra dos Roses". Pois é, as referências estão decaindo...

Mas, apesar da criatividade zero do argumento, Sr. e Sra. Smith não é o desastre que poderia se esperar. Os diálogos são bem cuidados, tirando partido de aplicar as queixas costumeiras de um casal ao inusitado da situação. Um bom exemplo é quando o Sr. Smith faz a clássica pergunta "quantos foram?", se referindo a assassinatos e não a parceiros sexuais. Ou quando tenta magoá-la dizendo que sua pontaria é tão ruim quanto sua comida. O destaque fica por conta das espertas seqüências de abertura e final, com o casal tentando resolver suas pendengas com um terapeuta. O duplo sentindo entre o que eles dizem e o que querem realmente dizer é um achado do roteiro.

É uma pena que o resto do filme não esteja à altura. O "miolo" carece de ritmo e peca pelo excesso de pirotecnia, privilegiando tiros e explosões ao invés de explorar as tiradas irônicas e a boa química do casal. A direção de Doug Liman (de A Identidade Bourne) é burocrática e insossa, a fotografia não merece destaque e os efeitos especiais são apenas corretos. Contudo, o filme tem um grande acerto: não se levar muito a sério, resvalando bastante para a comédia e até mesmo flertando com o humor negro.

Vale ressaltar que o grande mérito por manter a atenção do espectador é o carisma de seus astros. A trilogia Indiana Jones já ensinou o caminho das pedras: um filme de ação não pode prescindir de um herói repleto de charme e bom humor para conquistar a simpatia da platéia. E aqui temos dois. De um lado do ringue, Brad Pitt com mais um corte de cabelo estranho, como a querer provar para o mundo que não precisa de seus cabelos louros para ser bonito. O que é verdade, já que o cara está lindo como nunca. E, felizmente, atuando de uma maneira irreverente e deliciosa, anos-luz da performance preguiçosa apresentada em Tróia. Do outro lado, todo o peso da beleza surreal de Angelina Jolie. Ela, aliás, já provou que consegue carregar um filme nas costas ao protagonizar as duas aventuras da série "Lara Croft". Percebe-se que ela está totalmente à vontade, com sua bocona sempre pronta para soltar uma observação maliciosa.

Noves fora, Pitt e Jolie nos distraem tanto enquanto fazem o amor e a guerra que acabamos esquecendo da falta de consistência do filme. Só fica meio difícil distinguir onde terminam os tapas e começam os beijos, já que eles se espancam e se amam com igual intensidade.
 
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