Adoro Cinema
Porque cinema é muito mais do que pipoca!
 
 
Adoro Cinema .comAdoro Cinema Brasileiro.com.br
     Colunas  
O Blog Adoro Cinema!
 
Colunas
Geral    
Cena de Cinema    
Panorâmica    
Pedindo Bis    
Sétima Arte    
Tirando o Mofo    
Escurinho do Cinema  
Fora de Circuito    
Top 10 Brasil    
Top 10 EUA    
Matérias Especiais    
Diários Cinéfilos    
     
  Filmes
  Personalidades
  Promocine
  Interatividade
  Cinenews  
  Destaques  
  Equipe
  Festivais  
  Loja
  Primeira Visita  
  Contatos
 
 
 
 
Assista os melhores filmes de graça!
 

 
Hot Site Especial Indiana Jones
 
 
No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Cheio de Som e Fúria 


Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
(...)
Aos quinze foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor...

Os versos acima pertencem à música Faroeste Caboclo, composta por Renato Russo em 1986. Mas bem poderiam se referir a Querô, personagem-título da peça escrita por Plínio Marcos dez anos antes. Sobre seus personagens, o dramaturgo costumava dizer "que nem Deus olha por eles". Abandono. Talvez seja essa a palavra-chave para compreender a história e também o protagonista, um menino inconformado com sua falta de escolha, revoltado pelos maus-tratos e que tem na violência sua única defesa.

Querô é um adolescente que vive pelas cercanias do porto de Santos, sobrevivendo de pequenos delitos. Preferiu ficar por sua própria conta às constantes humilhações que sofria nas mãos da cafetina Violeta, que o acolheu a contragosto depois que sua mãe, a prostituta Piedade, se suicidou. Foi Violeta também a responsável pelo cruel apelido, uma referência ao fato de sua mãe ter bebido querosene até morrer. Logo Querô é apanhado pela polícia e mandado para o inferno da Febem. Constantemente maltratado, cresce sua revolta contra todos e o ódio por um destino que não lhe deu uma chance. Até que um dia a sorte parece lhe favorecer, mas sua chance de reabilitação pode ser frustrada pelos erros do passado.

Querô marca a estréia do documentarista Carlos Cortez na direção de longa-metragens de ficção. O que torna ainda mais impressionante o vigor e firmeza com que conduziu a história. Num processo muito parecido com o que culminou em Cidade de Deus, Cortez optou por trabalhar com não-atores e partiu para selecionar meninos que estivessem próximos da realidade mostrada no filme. A produção testou 1200 adolescentes recrutados em escolas, cortiços e também nas ruas de Santos e adjacências. Destes, 200 passaram para a fase seguinte, que foram as oficinas, e só então foram escolhidos os 40 que integram o elenco. Embora Querô já contasse com um roteiro, escrito por Cortez em parceria com os feras Bráulio Mantovani e Luiz Bolognesi, os meninos foram incentivados a improvisar e acabaram por interferir diretamente no processo de criação.

O resultado é um filme extremamente realista, que mostra a criminalidade adolescente sem cair na tentação de transformar o protagonista numa vítima inocente. Querô é uma vítima da sociedade sim, mas está longe de ser passivo. Assim como o João de Santo Cristo da música, sonhava em ser bandido. Mas será que algum dia ele realmente teve uma escolha? O agente da Febem o torturava ao invés de educar. O policial o extorquia ao invés de prender. A mãe adotiva o humilhava ao invés de amar. E nas poucas vezes em que ele pôde vislumbrar uma vida diferente, foi empurrado de volta ao inferno.

Querô ganhou quatro Candangos no Festival de Brasília: ator (Maxwell Nascimento), roteiro, som e direção de arte. Todos muito bem merecidos. O roteiro, em especial, merece aplausos por ter a inteligência rara das adaptações que mudam muita coisa do original sem trair a essência da história. Também é preciso destacar a força de Maxwell Nascimento como Querô. Com seu olhar cheio de fúria ou tristeza, dependendo do momento, o garoto se sai bem na difícil tarefa de carregar nas costas a carga dramática da trama.

O filme mostra não só como os textos de Plínio Marcos se mantêm a cada mais atuais, como também chega para botar mais lenha na fogueira da discussão sobre a criminalidade adolescente. Num momento em que se discute mais métodos de punição do que o porquê das coisas terem chegado a esse ponto, Querô bota o dedo nessa ferida social. E o espectador não deve estranhar se sair do cinema oprimido pelo sentimento de culpa.

 
Envie o seu comentário sobre esta coluna.

Leia outras colunas de Érika Liporaci no Adoro Cinema.
 
    Topo
 
  PROCURA


   ANÚNCIOS



 


Lista Completa de Filmes :|: Filmes em Cartaz :|: Filmes Inéditos :|: Atores :|: Diretores :|: Críticas :|: Pedidos :|: Colunas :|: Cinenews :|: Festivais :|: Fórum. :|: Promocine :|: Equipe :|: Anuncie
Adoro Cinema :|: Adoro Cinema Brasileiro
© Copyright 2001-2007A.C. Agência Digital - Todos os Direitos Reservados
Design por: Leo Faria Design