Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
(...)
Aos quinze foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor...
Os versos acima pertencem à música Faroeste Caboclo, composta por Renato Russo em 1986. Mas bem poderiam se referir a Querô, personagem-título da peça escrita por Plínio Marcos dez anos antes. Sobre seus personagens, o dramaturgo costumava dizer "que nem Deus olha por eles". Abandono. Talvez seja essa a palavra-chave para compreender a história e também o protagonista, um menino inconformado com sua falta de escolha, revoltado pelos maus-tratos e que tem na violência sua única defesa.
Querô é um adolescente que vive pelas cercanias do porto de Santos, sobrevivendo de pequenos delitos. Preferiu ficar por sua própria conta às constantes humilhações que sofria nas mãos da cafetina Violeta, que o acolheu a contragosto depois que sua mãe, a prostituta Piedade, se suicidou. Foi Violeta também a responsável pelo cruel apelido, uma referência ao fato de sua mãe ter bebido querosene até morrer. Logo Querô é apanhado pela polícia e mandado para o inferno da Febem. Constantemente maltratado, cresce sua revolta contra todos e o ódio por um destino que não lhe deu uma chance. Até que um dia a sorte parece lhe favorecer, mas sua chance de reabilitação pode ser frustrada pelos erros do passado.
Querô marca a estréia do documentarista Carlos Cortez na direção de longa-metragens de ficção. O que torna ainda mais impressionante o vigor e firmeza com que conduziu a história. Num processo muito parecido com o que culminou em Cidade de Deus, Cortez optou por trabalhar com não-atores e partiu para selecionar meninos que estivessem próximos da realidade mostrada no filme. A produção testou 1200 adolescentes recrutados em escolas, cortiços e também nas ruas de Santos e adjacências. Destes, 200 passaram para a fase seguinte, que foram as oficinas, e só então foram escolhidos os 40 que integram o elenco. Embora Querô já contasse com um roteiro, escrito por Cortez em parceria com os feras Bráulio Mantovani e Luiz Bolognesi, os meninos foram incentivados a improvisar e acabaram por interferir diretamente no processo de criação.
O resultado é um filme extremamente realista, que mostra a criminalidade adolescente sem cair na tentação de transformar o protagonista numa vítima inocente. Querô é uma vítima da sociedade sim, mas está longe de ser passivo. Assim como o João de Santo Cristo da música, sonhava em ser bandido. Mas será que algum dia ele realmente teve uma escolha? O agente da Febem o torturava ao invés de educar. O policial o extorquia ao invés de prender. A mãe adotiva o humilhava ao invés de amar. E nas poucas vezes em que ele pôde vislumbrar uma vida diferente, foi empurrado de volta ao inferno.
Querô ganhou quatro Candangos no Festival de Brasília: ator (Maxwell Nascimento), roteiro, som e direção de arte. Todos muito bem merecidos. O roteiro, em especial, merece aplausos por ter a inteligência rara das adaptações que mudam muita coisa do original sem trair a essência da história. Também é preciso destacar a força de Maxwell Nascimento como Querô. Com seu olhar cheio de fúria ou tristeza, dependendo do momento, o garoto se sai bem na difícil tarefa de carregar nas costas a carga dramática da trama.
O filme mostra não só como os textos de Plínio Marcos se mantêm a cada mais atuais, como também chega para botar mais lenha na fogueira da discussão sobre a criminalidade adolescente. Num momento em que se discute mais métodos de punição do que o porquê das coisas terem chegado a esse ponto, Querô bota o dedo nessa ferida social. E o espectador não deve estranhar se sair do cinema oprimido pelo sentimento de culpa.