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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Por Água Abaixo 

Em 1972, O Destino do Poseidon foi o ponto de partida de um gênero que marcaria o cinema hollywoodiano da década de 70: o filme-catástrofe. Com um elenco que contava com Gene Hackman, Ernest Borgnine, Shelley Winters e até Leslie Nielsen num papel sério, o filme foi indicado a nove Oscars e ganhou dois (efeitos especiais e canção original). O sucesso do longa gerou posteriormente dois filhotes infames, a seqüência Reencontro Dramático no Poseidon (1979) e o telefilme "The Poseidon Adventure" (2005). Mas O Destino do Poseidon foi muito além de seus próprios subprodutos e inaugurou na telona uma verdadeira febre de catástrofes, fossem elas marítimas, terrestres ou aéreas. Em 1974, foi lançado o célebre Inferno na Torre, com estrelas do tope de Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway e Fred Astaire no elenco. Aproveitando a nova tendência, vieram ainda os inúmeros "aeroportos": Aeroporto 75, Aeroporto 77 e Aeroporto 80 - O Concorde.

Visto hoje em dia, O Destino do Poseidon parece um pouco ultrapassado. Mas, sem dúvida, um bom filme. Mais que isso, o símbolo de um estilo típico dos anos 70. Daí a pergunta: por que refilmar algo tão notadamente datado? Não é de hoje que o cinemão americano padece com a falta de bons roteiros originais e para suprir essa escassez de criatividade os grandes estúdios bebem em qualquer fonte. Basta olhar a enxurrada de adaptações dos quadrinhos. Algumas realmente inspiradas - como V de Vingança -, mas muitas desnecessárias e feitas tão-somente para faturar em cima de um público cativo. Estava mesmo demorando, ainda mais depois dos 11 Oscars de Titanic, para que alguém tivesse a iniciativa de tirar Poseidon de seu merecido descanso.

A história? Vamos lá: na noite de réveillon, o luxuoso transatlântico Poseidon navega tranqüilamente pelo Atlântico quando uma onda gigantesca com mais de trinta metros atinge a embarcação com tanta violência que a vira de cabeça para baixo. Grande parte dos passageiros morre no impacto, esmagados ou simplesmente lançados ao mar. Os sobreviventes ficam confinados no salão de baile, que ainda permanece intacto. Mas um pequeno grupo não acredita que a estrutura do salão agüentará até a chegada do resgate e prefere buscar um modo de chegar ao casco, arriscando-se através de vários níveis de escombros para alcançar a superfície enquanto o navio começa a afundar.

O início do filme limita-se a justificar os US$ 140 milhões gastos no orçamento, passeando pelas dependências do navio com tomadas grandiosas ao estilo Titanic. Tudo enorme, imponente... e chato. Alguns personagens são jogados na trama de forma superficial e esquemática, enquanto outros reproduzem estereótipos mais do que batidos: o jovem casal apaixonado, o pai de donzela que é uma fera, o deprimido (com direito a ameaça de suicídio à moda Kate Winslet), o arrogante metido a engraçadinho e, claro, a mãe amorosa com seu filhinho. Já o herói Dylan é de uma indefinição assustadora. O espectador fica sem saber se ele é de fato um jogador profissional ou um milionário gastador. E, para piorar, em certa hora ele diz simplesmente que "conhece navios" para justificar seu savoir-affaire pelos meandros do Poseidon. Mas, a essa altura, entender os personagens já nem faz muita diferença. Resta a esperança de que a luta pela sobrevivência torne a história um pouco mais interessante. Mas isso tampouco acontece.

Com o navio de ponta-cabeça, é como se a lógica tivesse sido invertida também e logo o filme começa a ir a pique. Poseidon chega a arrancar risadas da metade para o final, de tão atabalhoadas as soluções propostas. Um exemplo é quando o menininho Conor some e aparece preso num compartimento sem que ninguém - na tela ou fora dela - tenha idéia de como o guri foi parar lá. A seguir, ele é resgatado pelo herói Dylan da mesma forma misteriosa e sem explicações. Cada suposto momento de emoção é sublinhado por uma trilha sonora óbvia e irritante e, como se não bastasse, também os diálogos são risíveis. Coisas do nível "diga que me ama antes que eu vá", precedendo um rompante de heroísmo do namoradinho apaixonado. A fragilidade do roteiro é tão evidente que inviabiliza qualquer tentativa de analisar o desempenho dos atores.

Justiça seja feita: toda a seqüência que mostra o navio sendo virado é bem-feita, ainda que demasiado longa. Mas é só. E não deixa de ser curioso que a onda gigante pareça uma cópia mais elaborada daquela de Mar em Fúria, também dirigido por Wolfgang Petersen. Petersen não é um cineasta de quem se costuma esperar grandes ousadias, mas nunca havia cometido um trabalho tão insosso e burocrático quanto esse. Seu filme anterior, Tróia, não chega a ser nenhuma maravilha, mas tem seus bons momentos. Já Poseidon consegue desagradar tanto gregos quanto troianos. Aliás, é muito triste ver o nome de Poseidon invocado dessa maneira. O deus grego dos mares merecia um mínimo de respeito.

 
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