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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Pirata Pirado

O cinema americano se afunda cada vez mais numa séria crise de inspiração. Não basta mais beber nas fontes da literatura e do teatro. Talvez porque o povo americano sofra do mesmo mal que o brasileiro: é pouco afeito a livros e peças. A solução encontrada foi ampliar os campos onde buscar matéria-prima. Começou com os quadrinhos, há muito tempo - embora só agora tenha virado, de fato, uma febre. Depois foi a vez dos games. E agora, como ponto culminante, um brinquedo da Disneyworld. O irônico é que antigamente a sétima arte é que inspirava os parques temáticos. Tá feia a coisa. Considerando suas origens, ninguém acreditava muito em Piratas do Caribe. O que dizer de um filme que aparentemente provocou rachas em seu próprio estúdio? Sem contar que a última incursão no gênero, o infame A Ilha da Garganta Cortada (1995), quase afundou a Warner junto com a carreira da atriz Geena Davis. Depois disso, muita gente passou a acreditar em maldição de pirata. Mas que nada. Maldições à parte, o que fez toda a diferença em relação a Piratas do Caribe foi a arma secreta com a qual nenhum brinquedo de parque conta: Johnny Depp.

A história, embora não faça lá muita diferença, é a seguinte: Elizabeth, a filha do governador de uma província dos EUA colônia, é seqüestrada por um bando de piratas assustadores. O motivo é um medalhão encontrado por ela quando criança que seria a chave para uma maldição asteca que se abateu sobre o bando. Will Turner, amigo de infância e apaixonado pela moça, está disposto a tudo para salvá-la. Até mesmo se associar ao Capitão Jack Sparrow, um perigoso pirata condenado à forca que promete ajudá-lo em troca de liberdade.


Johnny Depp provou, mais uma vez, que transcende o ofício de ator. Ele não se limita a interpretar Jack Sparrow. Ele é Jack Sparrow e ninguém duvida disso. Desde sua primeira aparição - hilária, por sinal - fica difícil desgrudar os olhos do seu jeitão afetado e vaidoso. E ao tornar seu personagem tão fascinante, ele eleva a qualidade de um filme que, sem ele, seria medíocre. As coreografias das lutas e os efeitos especiais são apenas corretos, não chegando em nenhum momento a deslumbrar. O roteiro é um amontoado de lugares-comuns. E o resto do elenco, se não atrapalha, também não chega a brilhar. Mas, felizmente para o público, Johnny Depp faz barba, cabelo, bigode e trancinhas neste filme.

É importante ressaltar que todos os outros personagens, logo de cara, dizem a que vieram. Com uma sacada, sabe-se quem é bom e quem é mau em Piratas do Caribe. Somente o Jack Sparrow de Depp consegue a proeza de escapulir das armadilhas do estereótipo o filme inteiro. O espectador não sabe muito bem qual é a do malandro dos sete mares. Uma passagem que ilustra isso com clareza é quando a mocinha Keira Knightley pergunta ao mocinho Orlando Bloom de que lado Sparrow está e o rapaz responde: "neste exato momento?" A verdade é que o pirata pirado está do seu próprio lado e pode estar mentindo para todo mundo para obter o que for mais vantajoso.

O curioso sobre o filme é que a instrução inicial do roteiro era para que o Capitão Jack Sparrow fosse interpretado de forma tradicional. Ou seja: no estilo olho-de-vidro e cara de mau. Mas Johnny Depp declarou ter pensado muito a respeito dos piratas e chegado à conclusão que eles eram o mais próximo na época de um astro do rock. Não era só roubar e pilhar, era ficar imortalizado na história. E assim, inspirado em Keith Richards, foi composto o personagem. Reza a lenda que um alto executivo da Disney foi visitar o set de filmagens e saiu de lá furioso, gritando para quem quisesse ouvir que Johnny Depp estava estragando o filme. Ainda bem que o diretor Gore Verbinski confiou na boa estrela de seu astro. Uma curiosidade: foi o primeiro filme da Disney a receber censura 12 anos.
 
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