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Pirata
Pirado
O
cinema americano se afunda cada vez mais numa séria
crise de inspiração. Não basta mais beber
nas fontes da literatura e do teatro. Talvez porque o povo
americano sofra do mesmo mal que o brasileiro: é pouco
afeito a livros e peças. A solução encontrada
foi ampliar os campos onde buscar matéria-prima. Começou
com os quadrinhos, há muito tempo - embora só
agora tenha virado, de fato, uma febre. Depois foi a vez dos
games. E agora, como ponto culminante, um brinquedo da Disneyworld.
O irônico é que antigamente a sétima arte
é que inspirava os parques temáticos. Tá
feia a coisa. Considerando suas origens, ninguém acreditava
muito em Piratas do Caribe. O que dizer de
um filme que aparentemente provocou rachas em seu próprio
estúdio? Sem contar que a última incursão
no gênero, o infame A Ilha da Garganta Cortada
(1995), quase afundou a Warner junto com a carreira da atriz
Geena Davis. Depois disso, muita gente passou a acreditar
em maldição de pirata. Mas que nada. Maldições
à parte, o que fez toda a diferença em relação
a Piratas do Caribe foi a arma secreta com
a qual nenhum brinquedo de parque conta: Johnny Depp.
A história, embora não faça lá
muita diferença, é a seguinte: Elizabeth, a
filha do governador de uma província dos EUA colônia,
é seqüestrada por um bando de piratas assustadores.
O motivo é um medalhão encontrado por ela quando
criança que seria a chave para uma maldição
asteca que se abateu sobre o bando. Will Turner, amigo de
infância e apaixonado pela moça, está
disposto a tudo para salvá-la. Até mesmo se
associar ao Capitão Jack Sparrow, um perigoso pirata
condenado à forca que promete ajudá-lo em troca
de liberdade.
Johnny
Depp provou, mais uma vez, que transcende o ofício
de ator. Ele não se limita a interpretar Jack Sparrow.
Ele é Jack Sparrow e ninguém duvida disso. Desde
sua primeira aparição - hilária, por
sinal - fica difícil desgrudar os olhos do seu jeitão
afetado e vaidoso. E ao tornar seu personagem tão fascinante,
ele eleva a qualidade de um filme que, sem ele, seria medíocre.
As coreografias das lutas e os efeitos especiais são
apenas corretos, não chegando em nenhum momento a deslumbrar.
O roteiro é um amontoado de lugares-comuns. E o resto
do elenco, se não atrapalha, também não
chega a brilhar. Mas, felizmente para o público, Johnny
Depp faz barba, cabelo, bigode e trancinhas neste filme.
É
importante ressaltar que todos os outros personagens, logo
de cara, dizem a que vieram. Com uma sacada, sabe-se quem
é bom e quem é mau em Piratas do Caribe.
Somente o Jack Sparrow de Depp consegue a proeza de escapulir
das armadilhas do estereótipo o filme inteiro. O espectador
não sabe muito bem qual é a do malandro dos
sete mares. Uma passagem que ilustra isso com clareza é
quando a mocinha Keira Knightley pergunta ao mocinho Orlando
Bloom de que lado Sparrow está e o rapaz responde:
"neste exato momento?" A verdade é que o
pirata pirado está do seu próprio lado e pode
estar mentindo para todo mundo para obter o que for mais vantajoso.
O curioso
sobre o filme é que a instrução inicial
do roteiro era para que o Capitão Jack Sparrow fosse
interpretado de forma tradicional. Ou seja: no estilo olho-de-vidro
e cara de mau. Mas Johnny Depp declarou ter pensado muito
a respeito dos piratas e chegado à conclusão
que eles eram o mais próximo na época de um
astro do rock. Não era só roubar e pilhar, era
ficar imortalizado na história. E assim, inspirado
em Keith Richards, foi composto o personagem. Reza a lenda
que um alto executivo da Disney foi visitar o set de filmagens
e saiu de lá furioso, gritando para quem quisesse ouvir
que Johnny Depp estava estragando o filme. Ainda bem que o
diretor Gore Verbinski confiou na boa estrela de seu astro.
Uma curiosidade: foi o primeiro filme da Disney a receber
censura 12 anos.
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