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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

A Vida Como Ela É

A maioria dos filmes românticos termina quando o relacionamento vai, de fato, começar, enfocando os caminhos que levam o casal a ficar junto e não a relação em si. Mas o que vem depois do "felizes para sempre"? É isso que Closer - Perto Demais tenta investigar, a partir dos encontros e desencontros entre quatro pessoas: o escritor Dan, a fotógrafa Anna, o médico Larry e a stripper Alice. O longa começa do modo mais convencional possível: Dan e Alice cruzam olhares na rua e, graças a um providencial acidente, se apaixonam perdidamente. O que poderia levar um filme inteiro para acontecer aqui ocorre em poucos minutos. É quando a história dá um salto no tempo e percebemos que mudaram sentimentos e convicções. O filme, que abrange cerca de três anos da vida de seus protagonistas, é repleto de pequenas elipses. Felizmente, o inteligentíssimo roteiro evita o recurso fácil das legendas e nos informa o tempo decorrido ao longo do diálogo.

O filme é baseado numa peça do inglês Patrick Marber, sucesso desde sua estréia nos palcos londrinos em 1997 - foi montada aqui no Brasil há quatro anos com o título de "Mais Perto", sob a direção de Hector Babenco. O próprio Marber se encarregou de adaptar o texto para essa versão cinematográfica, o que deve ter contribuído para o resultado coeso e vigoroso que vemos na telona. O filme é teatral, mas no melhor sentido do termo: salvo um ou outro figurante, toda dramaturgia se apóia em quatro atores que, diga-se de passagem, estão estupendos. Especialmente Natalie Portman e Clive Owen, vencedores de merecidíssimos Globos de Ouro de melhor atriz e ator coadjuvante - embora considerá-los coadjuvantes seja uma manobra discutível.

Closer faz um assustador painel da relação entre homens e mulheres no mundo moderno, onde a disputa pelo amor acaba se confundindo com poder e dominação. Os personagens usam o amor como desculpa para suas ações, mas parecem estar sempre visando seu próprio bem-estar e a cada nova volta da roda-viva têm um diferente objeto de desejo. A certa altura, um personagem exclama com mágoa: "Você não pode me abandonar. Sou eu quem sempre abandona as pessoas". O que dá a medida exata do egoísmo humano, já que as traições mais cruéis sempre são as que sofremos e nunca as que infligimos.

Por outro lado, o texto resiste à tentação de fazer o inferno a partir dos outros. Cada um é seu maior antagonista e é o peso de suas próprias inseguranças que põe tudo a perder. Como em "Macbeth", em que a maior ameaça ao usurpador shakesperiano vem de sua consciência pesada. O mesmo ocorre neste filme: embora os personagens sejam desprovidos de qualquer traço de heroísmo, nenhum deles poderia ser considerado um vilão clássico. Não há o simplismo das grandes maldades e sim a complexidade das mentiras e traições cotidianas. Reações vingativas e rancorosas que a maioria de nós já teve vez ou outra, mas não confessa nem à própria sombra. Absolutamente desconcertante o modo como todos são adoráveis em determinadas passagens e desprezíveis em outras. O mesmo personagem de quem nos apiedamos e que exala dignidade quando está por baixo, mostra sua face tirana logo que a fortuna o favorece.

A estréia do diretor Mike Nichols no cinema foi pra lá de promissora: seu primeiro filme foi o bombástico Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966), seguido do cultuado A Primeira Noite de um Homem (1967). Mas, de lá pra cá, Nichols não fez um filme sequer que chegasse à altura destes dois. Sua produção oscilava entre coisas razoáveis como Lembranças de Hollywood e constrangimentos como "Lobo". Mesmo tendo dirigido a premiada série televisiva Angels in America (2003), o diretor andava em débito com a sétima arte. Em Closer, Nichols por fim retoma em grande estilo o vigor perdido há quase 30 anos.


 
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