Está aberta a temporada de caça aos Oscars. E a verdade é que todo cinéfilo, por mais blasé que tente aparentar, fica no mínimo curioso para saber quem serão os vencedores da estatueta mais famosa do mundo. Os prognósticos costumam mudar a cada dia e candidaturas que pareciam inabaláveis de repente perdem a força, ao passo que outras que começam tímidas de repente viram sensação.
Dos cinco indicados ao prêmio máximo, três - Os Infiltrados, Pequena Miss Sunshine e Babel - se encontram em cartaz e dois - Cartas de Iwo Jima e A Rainha - estréiam em fevereiro. Os Infiltrados despontou ainda em 2006 como favoritíssimo. Tinha todos os predicados a seu favor: além de ser de fato um excelente filme, representava uma oportunidade da Academia reparar a injustiça de nunca ter premiado um filme de Martin Scorsese. Depois de violentar o próprio estilo para tentar agradar com os caidinhos Gangues de Nova Iorque e O Aviador, Scorsese resolveu voltar a seu habitat natural: o filme de mafioso. Ironicamente, foi com este retorno às origens que vinha renegando que ele atingiu um patamar que não alcançava desde Os Bons Companheiros.
O primeiro indicativo de que algum outro filme poderia ameaçar a supremacia de Os Infiltrados aconteceu na noite de 15 de janeiro quando, após perder em todas as categorias a que havia sido indicado, Babel encerrou a festa rindo por último ao levar a cobiçada estatueta de melhor filme em drama. Embora muita gente tenha reagido depois com um "eu já sabia", a verdade é que até mesmo o diretor Alejandro González Iñárritu parecia chocado com sua surpreendente vitória. As apostas agora já não apreciam tão certeiras.
E foi aí que tudo embolou de vez. Enquanto os dois grandes filmes se engalfinhavam no favoritismo, o delicioso e anárquico Pequena Miss Sunshine começou a correr por fora. Principiou com o prêmio do sindicato dos produtores, seguido do SAG - Screen Actors Guild, do sindicato dos atores - de melhor elenco. Ora, todos sabemos que esse "melhor elenco" é o prêmio de melhor filme disfarçado. Considerando que os cinco indicados ao SAG são os mesmos cinco indicados ao Oscar e que a classe dos atores tem peso significativo nas votações da Academia, podemos dizer que uma vitória de Pequena Miss Sunshine não chegaria a ser uma zebra.
Se a vitória de Os Infiltrados como melhor filme já não é mais tão líquida e certa, pelo menos o Oscar de melhor diretor parece já ter destino certo. Embora Martin Scorsese esteja sendo prudente em suas declarações, ninguém acredita que ele possa perder novamente. Chegaria a ser uma crueldade não premiá-lo este ano. E vamos combinar que é uma vergonha esse ícone do cinema americano nunca ter levado um Oscar para casa. Desta vez Scorsese dificilmente levará outra rasteira de Clint Eastwood, como ocorreu em 2005. Tampouco vão dar trabalho Alejandro González Iñárritu e Stephen Frears, e muito menos Paul Greengrass (o único cujo filme, Vôo United 93, não foi indicado).
Outra categoria que não deixa dúvidas é a de melhor atriz. A inglesa Helen Mirren não perdeu nenhum dos prêmios que disputou até agora, só faltando o Oscar para fechar o circuito. Sua performance como Elizabeth II em A Rainha é uma das coisas mais incríveis já vistas na história do cinema. Confesso que a primeira aparição de Helen na tela me deixou tão embasbacada que eu perdi várias legendas. Uma grande atriz, num grande papel, com uma caracterização simplesmente impecável. Já ganhou. Uma pena para a sempre ótima Kate Winslet, em sua quinta indicação - a terceira como atriz principal - pelo impressionante Pecados Íntimos. Já a espanhola Penélope Cruz, embora esteja atuando surpreendentemente bem em Volver, é o que se costuma chamar de indicação exótica - aquela que por si só já é um prêmio. Completam a lista as veteranas Judi Dench e Meryl Streep.
Melhor ator? Me desculpem Ryan Gosling, Peter O'Toole e Will Smith, mas essa briga é somente entre Leonardo DiCaprio e Forest Whitaker. Leonardo começou na frente, acumulando duas indicações ao Globo de Ouro - por Diamante de Sangue e Os Infiltrados - e acabou derrotado por si mesmo, ao dividir seus votos e abrir caminho para a vitória de Forest Whitaker com sua explosiva interpretação de Idi Amin Dada em O Último Rei da Escócia. E, desde então, Whitaker tomou a dianteira e abocanhou o SAG também.
A categoria dos coadjuvantes, embora tenha fama de imprevisível, deve servir de consolação ao esquecido Dreamgirls. A biografia disfarçada das Supremes foi esnobada pelo Oscar, depois de ter vencido o Globo de Ouro de melhor filme musical/comédia. Mas a novata Jennifer Hudson e o renascido Eddie Murphy vêm conquistando todos os prêmios.
Por fim, não posso deixar de destacar o prestígio crescente do mexicano O Labirinto do Fauno que, além de concorrer como melhor filme estrangeiro, extrapolou para as categorias principais e cravou mais cinco indicações: roteiro original, maquiagem, fotografia, direção de arte e trilha sonora. Vale lembrar que aqui no Brasil esse excelente filme, um dos melhores de 2006, não apenas passou despercebido pelo público como também foi retirado de cartaz em sua segunda semana após ter sido massacrado pela crítica. Com a curiosa não-indicação de Volver, sua vitória como filme estrangeiro é barbada.
Os palpites são esses. O que, em se tratando de Oscar, não quer dizer muita coisa. Não faz mal. O legal mesmo é preparar a pipoca, torcer pelos favoritos e se indignar com as injustiças na noite de 25 de fevereiro.