É uma tradição: todo ano, quando são conhecidos os cinco filmes indicados ao Oscar, começam as reações indignadas a respeito de inclusões desmerecidas e ausências imperdoáveis. Ao menos um azarão costuma figurar na lista. Basta lembrar que bobagens como Mestre dos Mares e Erin Brockovich já foram indicados ao prêmio máximo da Academia. Este ano, salta aos olhos a não-indicação de pelo menos três ótimos filmes: Ponto Final, o conto amoral de Woody Allen que subverte tudo que se convencionou associar aos seus filmes e tem como tema o papel decisivo da sorte (ou falta dela) em nosso destino; Sra. Henderson Apresenta, exuberante musical inspirado na história real da ricaça londrina que, durante a 2ª Guerra, fez a alegria dos soldados ao colocar suas coristas nuas em cena; e Johnny e June, visceral retrato da trajetória de dores e sucessos do músico Johnny Cash e a longa corte para conquistar sua June.
Ao contrário do ocorrido em outros anos, a exclusão destas produções gera um paradoxo: para que um deles obtivesse a indicação, algum dos cinco indicados não poderia estar ali. E estamos falando de Brokeback Mountain, Boa Noite, e Boa Sorte, Capote, Crash e Munique. Muito difícil questionar tal seleção. O Oscar 2006 reflete um excedente de filmes de qualidade feitos em 2005. Algumas edições do prêmio que primaram pelo bom senso assim o foram porque a safra daquele ano não gerou tantos concorrentes de primeira linha. Basta lembrar os do ano passado: Menina de Ouro, O Aviador, Em Busca da Terra do Nunca, Sideways e Ray. Todos bons filmes, talvez até fossem de fato os melhores do ano, mas nenhum com a explosiva carga social ou política dos longas que brigarão pela estatueta dourada no próximo dia 5.
Brokeback Mountain, o franco-favorito, começou sua trajetória de sucesso no último Festival de Veneza e já arrebanhou mais de 40 prêmios mundo afora. Muitas piadinhas foram feitas a respeito do filme, mas a apaixonante saga de amor dos dois vaqueiros que não conseguem lidar com um sentimento tão violento quanto inconveniente extrapola o universo da relação entre iguais. O tema da impossibilidade de um amor é universal e comove qualquer um que já tenha passado por tal situação. O filme acendeu a fogueira do debate, dividindo opiniões e chocando os conservadores por conta da abordagem direta da atração entre os rapazes. O fato de um filme assim conquistar o tapete vermelho em Hollywood sinaliza uma saudável melhoria da mentalidade americana.
Boa Noite, e Boa Sorte, além de sua importância política, é um fascinante retrato dos bastidores da TV americana dos anos 50, ao narrar o embate do jornalista Edward Murrow contra os abusos do senador Joseph McCarthy. Em seu segundo trabalho como diretor, George Clooney demonstra maturidade e sofisticação de mestre. Clooney optou por rodar o filme em preto-e-branco, para que pudesse utilizar imagens de arquivo dos interrogatórios conduzidos por McCarthy. Decisão espertíssima, já que mostrar o verdadeiro McCarthy em toda sua malignidade impressiona muito mais que escalar um ator para representá-lo. Diálogos precisos, elenco afinado, direção de arte elegante. Um filme redondinho.
Capote retrata um período específico na vida do jornalista e escritor Truman Capote: o processo de gestação de sua obra-prima, "A Sangue-Frio", mistura de romance e reportagem gerado pelo convívio do escritor com dois assassinos condenados à morte. O filme questiona os limites éticos da arte e até que ponto foi o envolvimento de Capote com um dos criminosos. O episódio foi tão marcante para o autor que ele nunca mais concluiu outro livro, vindo a morrer quase 20 anos depois do ocorrido. A interpretação brilhante de Philip Seymour Hoffman como o polêmico e afetado Capote lhe rendeu todos os prêmios a que concorreu, o que praticamente coloca o Oscar no seu bolso.
Crash significa colisão. Um título bastante apropriado para um filme em que os personagens não se encontram e sim batem de frente. Todos são cheios de preconceitos e estão tendo um péssimo dia. E quando esses poços de ressentimento começam uns a cruzar o caminho dos outros, seja no trânsito ou numa loja de conveniência, a tensão sobe a níveis estratosféricos. Histórias que gravitam em torno de uma unidade temática ao invés de um protagonista são terreno acidentado, mas o roteirista Paul Haggis (de Menina de Ouro) foi aprovado com louvor em sua primeira incursão atrás das câmeras. Um filme perturbador e corajoso.
Munique veio restaurar a fé do cinéfilo em Steven Spielberg. Depois de uma década dirigindo bombas, sendo a mais recente o trash involuntário Guerra dos Mundos, o diretor de E.T. finalmente acerta o passo. Sua visão do atentando da Olimpíada de Munique, quando morreram onze atletas israelenses, e da retaliação impiedosa que o governo israelense teria promovido não apenas é imparcial (fato inacreditável, sendo Spielberg judeu) como tem o cuidado de mostrar o assunto por diversos ângulos, deixando a conclusão a cargo do espectador. Sem contar as cenas de ação de tirar o fôlego e uma carga de violência e sensualidade inédita até então no histórico do cineasta.
Noves fora, a conclusão acaba sendo positiva. Por mais que se lamente a má sorte dos sem-indicação, resta o consolo de saber que eles foram preteridos em favor de cinco exemplares de excelente cinema. O próprio Ponto Final, um dos excluídos, endossa a tese de que não se pode lutar contra certos desígnios do destino.