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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Inocência Perdida


Roman Polanski já escreveu seu nome na história do cinema, estando sempre associado à polêmica e ousadia. Introduziu na sétima arte o terror psicológico com o surrealista O Bebê de Rosemary; revitalizou o filme noir em plenos anos 70 com Chinatown; rompeu com os tabus do sexo no provocante Lua de Fel; e, finalmente, foi coroado com o Oscar de melhor diretor ao exorcizar suas origens judaicas em O Pianista. Não deixa de ser curioso que um cineasta com o seu histórico tenha resolvido se voltar para o clássico de Charles Dickens, "Oliver Twist". O romance, escrito em 1837, já teve inúmeras adaptações para cinema, TV e teatro - só perde para "Drácula", de Bram Stoker, e "Os Miseráveis", de Victor Hugo. As versões mais famosas para a telona são a de David Lean (1948) e o musical "Oliver!", de Carol Reed (1968), vencedor do Oscar de melhor direção.

A história é modelo para qualquer outra que trate de crianças abandonadas, já que até mesmo em ícones contemporâneos como Harry Potter é possível reconhecer alguma referência ao personagem de Dickens. Provavelmente também foi o primeiro romance a se debruçar sobre o tema da exploração de menores. Oliver Twist é um órfão dentre tantos a sofrer maus-tratos na Inglaterra vitoriana. Cansado das humilhações e castigos recebidos no orfanato, foge para Londres e lá conhece um velho malandro que gerencia um grupo de jovens prostitutas e pequenos marginais. A despeito de tudo, Oliver se esforça para conservar a pureza num cenário tão árido. A narrativa é extremamente tocante e, até hoje, fica difícil resistir aos encantos da fábula cruel sobre o menino bom sem oportunidades de obter um mínimo de dignidade. E vale ressaltar que pobreza na Londres recém-industrializada significava uma sobrevivência desumana, em condições deploráveis de saúde e higiene.

Polanski declarou que resolveu filmar essa história por sugestão de sua esposa, a atriz Emmanuelle Seigner, para que pudessem finalmente ver um filme em família... Sei não. Há algo de muito esquisito quando um dos cineastas mais provocadores e subversivos do mundo faz um filme para ver com os filhos (o bom é que desde O Último Portal o público tem sido poupado das atuações lamentáveis da moça). Não há dúvida de que a produção é perfeita em termos técnicos. A direção de arte é soberba e a fotografia chega a parecer uma pintura de tão deslumbrante. Direção precisa, interpretações inspiradas, roteiro eficiente... Então, qual o problema com o filme? Se o diretor fosse um ilustre desconhecido, nenhum. Mas o espectador fica a esperar um diferencial que justifique a decisão de Polanski de se debruçar sobre uma obra que já foi tão exaustivamente adaptada. "Oliver Twist" é um belo filme sim, mas não se reconhece a assinatura de Roman Polanski nele.
 
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