Sábado à tarde. Uma roda de amigos. Alguém começou a falar de cinema e a colunista aqui cometeu a heresia de dizer que estava pensando em ir à pré-estréia de Obrigado por Fumar naquela noite. Um dos presentes se exaltou no mesmo instante, questionando com severidade meu desplante de querer ver um filme grotesco que faz apologia do tabagismo. Tal reação exagerada não chega a surpreender. Era apenas mais uma das muitas pessoas que viram um cartaz ou trailer deste filme e tiveram uma impressão totalmente equivocada de seu teor. É o preço que se paga pela ironia fina: o risco de ser levada a sério. E convenhamos, considerar Obrigado por Fumar um libelo a favor da indústria de cigarros é o equivalente a crer que O Silêncio dos Inocentes seja um propagador do canibalismo.
O protagonista, Nick Naylor, é porta-voz das grandes empresas de cigarros e ganha a vida executando a quase impossível tarefa de neutralizar as campanhas contra seus clientes. Mas Nick é incrivelmente bom no que faz e acaba por atrair contra si o ódio de toda uma nação. Desafiado em programas de TV, achincalhado pela mídia e alvo preferencial de um senador xiita que deseja estampar uma caveira nos maços de cigarros, Nick segue em frente manipulando informações e torcendo argumentos a seu favor. Sua habilidade em se safar de saias-justas atrai a atenção de uma ambiciosa repórter disposta a tudo para desmascará-lo. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com a ex-mulher e seu desagrado em perceber que o filho pré-adolescente já dá sinais de possuir o caráter dúbio do pai.
O diretor estreante Jason Reitman - filho de Ivan Reitman, criador de sucessos como Os Caça-Fantasmas e "Irmãos Gêmeos" - adotou uma tática inusitada: escreveu cartas aos atores que pretendia ter em seu filme, explicando porque os considerava ideais para seus personagens. A massagem no ego funcionou: todos aceitaram o papel. Mesmo com o orçamento modesto de US$ 6,5 milhões, a esperteza de Reitman lhe valeu um elenco formado por suas primeiras opções. E estamos falando de gente competente como William H. Macy e Robert Duvall, além de um inspiradíssimo Aaron Eckhart no papel principal. A única bola fora foi a escalação de Katie Holmes. Com sua expressão de freira penitente, a Sra. Tom Cruise definitivamente não convence como a repórter que chega às últimas conseqüências para conseguir um furo.
O principal alicerce do filme é seu humor anarquista, que não está nem aí para o politicamente correto. Só para se ter uma idéia, logo na abertura há uma seqüência em que um menino com câncer de pulmão é ridicularizado. Sem contar que os melhores amigos de Nick são uma lobista de bebidas e um representante da indústria bélica. Em uma das cenas mais hilárias, o trio - que se auto-intitula "Os Mercadores da Morte" - compara estatísticas para ver quem causa mais vítimas. Talvez seja esse tipo de humor, que diz absurdos com tom de seriedade, que venha causado tantos mal-entendidos. Cáustico, provocador e, sobretudo, muito inteligente, Obrigado por Fumar acredita na perspicácia do espectador ao deixar que ele faça seu próprio julgamento ético. Afinal de contas, como o próprio Nick Naylor define, algumas pessoas têm mais "elasticidade moral" do que outras.
Ao contrário dos efeitos causados pelos cigarros, Obrigado por Fumar não tem contra-indicações. Pelo contrário: é extremamente benéfico para a saúde mental.