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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
É Preciso Saber Morrer
2005 está sendo um grande ano para os fãs de Tim Burton:
não bastasse o lançamento há alguns meses da
deliciosa refilmagem de A
Fantástica Fábrica de Chocolate, agora chega aos
cinemas A
Noiva-Cadáver, um inspirado reencontro do cineasta com
suas origens de animador. O filme derruba de vez o conceito de que
filme de animação é, necessariamente, para
o público infantil. A
Noiva-Cadáver é um filme para adultos, desde os
toques de humor negro até a madura reflexão sobre
vida e morte, podendo até assustar os miúdos em certas
cenas. Então, caro leitor, nada de usar seu sobrinho como
desculpa para ir ao cinema. Vá sozinho. Mas vá, porque
o filme é imperdível.
A trama, baseada numa lenda do folclore russo, tem como ambientação
uma cinzenta era vitoriana e suas rígidas convenções.
Victor, filho único de um casal de novos-ricos, está
sendo empurrado para um casamento de conveniência com Victoria,
filha de nobres falidos. Os dois só se conhecem na véspera
do enlace e até parecem simpatizar um com o outro, mas a
pressão sobre o tímido rapaz é tanta que ele
se atrapalha e erra tudo no ensaio da cerimônia. Humilhado,
se esconde na floresta e lá começa a ensaiar. Quando
enfia a aliança no que parecia ser um galho seco, desperta
o espírito infeliz de uma jovem assassinada no dia do casamento
e é arrastado para o mundo dos mortos.
Um dos aspectos mais fascinantes da história é a inversão
das noções de vida e morte. Enquanto o mundo real
é sombrio, triste e decadente, a terra dos mortos é
colorida e cheia de entusiasmo. Os bares estão a todo vapor,
a música não pára de tocar e todos estão
imbuídos de contagiante alegria de viver - ou de morrer,
que seja. Livres dos espartilhos e regras sociais, são os
mortos que parecem vivos no filme. E as seqüências mais
tocantes são justamente as que promovem o encontro entre
esses dois mundos. A cena em que Victor reencontra seu antigo cachorrinho
é de derreter os corações mais agnósticos.
Por isso, não vai ser nada estranho se o espectador se pegar
torcendo para que Victor esqueça da vida entediante que deixou
e seja feliz no além ao lado da sensível fantasminha.
Afinal de contas, tirando sua noiva Victoria - que é realmente
gente boa -, o carrancudo povo da Terra não deixa saudades
em ninguém.
É possível reconhecer releituras de algumas cenas
feitas anteriormente com gente de carne e osso. A bela tomada da
Noiva-Cadáver rodopiando sob a neve, por exemplo, é
igualzinha à célebre dança de Winona Ryder
em Edward
Mãos de Tesoura. Outra cena toma emprestada a famosa
fala de ...E
o Vento Levou (Francamente, minha querida, não dou a
mínima), mas aplicada a um contexto totalmente inusitado.
O filme é realizado em stop-motion, ou seja, animação
com bonecos fotografados quadro a quadro. A mesma técnica
de "O Estranho Mundo de Jack" (concebido e produzido por Burton)
e A
Fuga das Galinhas. O processo exige paciência e paixão
infinitas: filma-se um quadro, altera-se de leve a posição
dos bonecos para a nova tomada e assim por diante. Vendo o resultado
na tela, é quase impossível crer que os cenários
deslumbrantes de A
Noiva-Cadáver não foram feitos em computador.
A textura dos personagens, o brilho das paisagens, o esvoaçante
véu da garota morta... tudo criado artesanalmente? Pois é.
Um processo só possível sob a direção
de um mestre em animação e cinema.
Mas toda a excelência técnica do filme de nada adiantaria
caso não estivesse a serviço de uma história
bela e comovente, magnificamente interpretada. Os dubladores, aliás,
têm papel essencial, já que a gravação
das vozes é feita antes da manipulação da expressão
dos bonecos. Johnny Depp, parceiro de longa data de Burton, empresta
não apenas a voz, mas suas feições ao tímido
Victor. É difícil ver o boneco e não lembrar
de Depp como o romântico Edward Mãos de Tesoura. O
ator trabalhou simultaneamente em A
Noiva-Cadáver e A
Fantástica Fábrica de Chocolate, quase sempre
saindo direto do set deste último para a cabine de gravação.
Helena Bonham-Carter, outra colaboradora fiel, dá vida à
doce Noiva-Cadáver enquanto Emily Watson dubla a contida
Victoria. A lista de intérpretes inclui ainda intervenções
geniais de Albert Finney e Christopher Lee. Danny Elfman, autor
de mais essa hipnótica trilha sonora, também faz uma
participação como Bonejangles, líder da banda
The Skeletones. Quem tem mais de 30 anos lembra de Elfman à
frente do grupo Oingo Boingo cantando "Dead Man's Party". Tudo a
ver. Um barato a cena em que os músicos cantam para Victor
a saga da Noiva-Cadáver ao ritmo do jazz dos anos 30. Portanto,
fica o conselho: cópias dubladas, nem pensar.
Segmentar A
Noiva-Cadáver como um dos melhores filmes de animação
já feitos é restringir o alcance desta fábula
maravilhosa sobre vida, morte e compromisso, mas, desde já,
fica aqui minha convicção de que o filme não
tem concorrentes para o próximo Oscar de melhor animação.
E fica também a certeza de que é um dos melhores filmes
lançados neste ano de tanta fartura cinematográfica.
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