Infelizmente, ainda existe um certo preconceito do grande público contra o cinema brasileiro. E quando acontece de um filme nacional ser um estrondoso sucesso, geralmente é uma produção que agrada à turma adepta do "cinema é a maior diversão": versões para a telona de seriados de TV, comédias com astros de novelas, biografias de cantores sertanejos, etc. Do outro lado do ringue, há o que se convencionou considerar como cinema brasileiro "sério". De vez em quando, acontece de um filme se encaixar nas duas categorias e conseguir conjugar o sucesso comercial com o sucesso de crítica - como é o caso dos premiados Cidade de Deus e Central do Brasil. O que gera uma espécie de efeito colateral em realizadores ávidos por repetir esses fenômenos. Existe um arsenal limitado de temas que são recorrentes nessa tentativa: política, violência urbana, prostituição infantil, denúncia social. Certamente temos incontáveis exemplos de grandes filmes realizados enfocando os assuntos citados. E a sétima arte feita por aqui parece sempre se equilibrar entre essas tendências. Poucos filmes fogem completamente e ousam um tema sensível e pouco chamativo. Um receio natural, mas que só torna mais louvável a realização do curta-metragista Philippe Barcinski ao escolher o caminho menos trilhado em seu longa de estréia.
O delicadíssimo Não Por Acaso trata de sentimentos como solidão e incomunicabilidade, mas discute principalmente o fato de que a suposta estabilidade da vida de qualquer pessoa está sempre suspensa por uma tênue linha que, rompida, pode fazer com que tudo desmorone. E quando isso acontece é uma grande incógnita descobrir o que cada personagem fará diante da peça que o destino lhe pregou. É mais ou menos como já profetizou Chico Buarque há tantos anos: A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega o destino pra lá.
Não é por acaso que vidas se cruzam. Essa é a tese defendida pelo filme. Ou melhor, "tese defendida" não é um bom termo para a suavidade com que essa narrativa com clara influência de Woody Allen é conduzida. Ao contrário dos onipresentes engarrafamentos de São Paulo, a história passeia com grande fluência pelas ironias do destino: Ênio é um engenheiro de trânsito que tem controle sobre as rodovias, mas vive à deriva em sua vida particular. Um solitário divorciado, que tem uma filha adolescente que não conhece. Mas a menina, Bia, manifesta o desejo de conhecê-lo pouco antes de sua ex-esposa sofrer um trágico acidente. Um acidente também marca a vida de Pedro, marceneiro especializado em mesas de sinuca. Jogador de grande talento e pouca auto-estima, ele tem que sair da inércia quando perde a namorada Teresa. Mas o mesmo destino que lhe tira o amor com uma mão presenteia com outra, já que a partida de Teresa está intimamente ligada à chegada de Lúcia em sua vida.
O elenco é perfeito, com destaque para o sempre maravilhoso Leonardo Medeiros (quem assistiu a Cabra-Cega sabe do que eu estou falando) e um cada vez mais expressivo Rodrigo Santoro. O ator, que já havia mostrado a que veio em Bicho de Sete Cabeças, aqui apresenta uma atuação irretocável. Seu personagem convence em todos os mínimos detalhes, do modo levemente rude de falar à mão calejada com que manuseia os instrumentos de trabalho. Cássia Kiss também faz excelente trabalho, ao interpretar de modo original um personagem que poderia facilmente cair no estereótipo da sogra megera.
O roteiro do filme é de uma precisão cirúrgica. Não existe uma única fala excessiva. Tudo é seco, contido, preciso, direto. Assim como as passagens de tempo, que evitam com rara sabedoria as repetições e explicações desnecessárias. Outro ponto interessante é a correlação feita entre o tráfego e a vida dos personagens, transformando o trânsito caótico de São Paulo num personagem importante para a trama.
Não Por Acaso ganhou quatro prêmios no Cine PE - Festival do Audiovisual: Ator (Leonardo Medeiros), Atriz Coadjuvante (Branca Messina), Fotografia e Edição. E não foi por acaso, não. Foi por puro merecimento.