|
 |
|
| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
A Vingança dos Nerds
O escritor Ira Levin é conhecido por abordar temas
espinhosos e inusitados em seus romances. E o mundo do cinema
adora. Tanto que O
Bebê de Rosemary foi imortalizado como obra-prima
pelas mãos de Roman Polanski e "Um Beijo Antes de Morrer"
(o livro, no Brasil, se chamava "O Beijo da Morte") já
ganhou nada menos que duas versões para a telona. O
romance "The Stepford Wives" (publicado
aqui com o esquisito título "As Possuídas")
também já foi filmado em 1975, tendo Katharine
Ross à frente do elenco. Originalmente, tratava-se
de uma visão sombria não só do feminismo,
mas das relações humanas em geral. Mantendo
mais dessa essência do que pode parecer a princípio,
o diretor Frank Oz e o roteirista Paul Rudnick atualizaram
o assustador romance de Levin e o transformaram num retrato
bem ácido tanto da mulher moderna quanto do homem esmagado
pelo recente poderio feminino.
Mulheres
Perfeitas tem sido divulgado como uma comédia.
Nada mais equivocado, já que, embora tenha várias
tiradas espirituosas, o humor que há no filme é
totalmente negro. A protagonista da trama é Joanna
Eberhart, superpoderosa presidente de uma emissora de TV que
acaba caindo do salto por ter passado das medidas num reality
show , causando um escândalo que comprometeria
a imagem da empresa. Já neste começo, temos
uma crítica aos padrões de qualidade do entretenimento.
Os vitoriosos programas de Joanna são de péssimo
gosto, sempre tendendo para um feminismo agressivo e unilateral,
mas aplaudidos enquanto geram benefícios para a emissora.
Demitida e em meio a uma crise nervosa, Joanna se deixa convencer
pelo marido a mudar de vida. Passando a nítida impressão
de que Walter Eberhart só tem poder de decisão
porque a esposa está em colapso. A família migra
para Stepford, bucólica cidadezinha em Connecticut,
onde tudo parece saído de um comercial de margarina.
Casas fantásticas, pobreza zero, violência inexistente.
E mulheres perfeitas. Louras, sorridentes, sempre impecavelmente
vestidas e penteadas - mesmo para malhar ou ir ao supermercado.
Basta dizer que a diva Nicole Kidman parece uma mulher comum
perto delas. E o mais curioso: todas parecem extremamente
obedientes e felizes com seus maridos, que não são
exatamente modelos de perfeição.
Enquanto tal situação deixa Joanna estupefata,
Walter começa a sentir-se mais do que confortável
em Stepford. O exemplo de seus vizinhos o incentiva a atitudes
inéditas como, por exemplo, dar uma de machão
pra cima da esposa. Ao investigar o que acontece com as pessoas
por lá, Joanna acaba descobrindo que todas aquelas
barbies catatônicas foram, num passado não muito
distante, grandes executivas. O que teria acontecido para
deixá-las daquele jeito?
Mulheres
Perfeitas foi concebido em alta voltagem: o ritmo é
histérico, frenético, farsesco. Uma alegoria
e tanto do mundo moderno. Afinal de contas, a Joanna executiva
parece tão robotizada em seu papel de toda-poderosa
quanto as mulheres descerebradas de Stepford. Elas apenas
funcionam em freqüências alternadas, como modelos
diferentes de eletrodomésticos. Aliás, vale
ressaltar que Nicole Kidman está brilhante com sua
performance afetada. Talvez a grande ironia do filme seja
mostrar que uma mulher emancipada pode estar tão presa
a convenções quanto uma dona-de-casa à
antiga. Será que Joanna era feliz naquele estilo de
vida ou era só um modo de competir (e ganhar) a guerra
dos sexos? Numa das melhores seqüências do filme,
o personagem de Christopher Walken joga na cara de Joanna
que ela só está magoada porque eles, os homens,
"pensaram naquilo primeiro". E o público sabe que,
no fundo, é verdade. Que alternativa tinham os nerds
? Eles estavam cansados de viver à sombra de mulheres
brilhantes.
Esse tom de "guerra é guerra" faz o filme crescer,
já que seria muito fácil e óbvio transformar
os maridos em encarnações do Mal. É uma
pena que o longa não consiga manter esse estilo de
fina ironia até o fim. Frank Oz, embora tenha no currículo
o incrivelmente inspirado Os
Picaretas, é mais associado a filmes medianos como
Será
Que Ele É? e A
Cartada Final. É louvável a nova roupagem
dada à história, mas talvez o diretor tenha
exagerado um pouco o tom. Um bom exemplo é a cena em
que um dos personagens usa sua bela mulher como caixa eletrônico.
Passou das medidas. O desfecho - diferente do escrito há
décadas por Ira Levin - ironiza o suposto poder obtido
pelos maridos nerds. Certo, parecia necessário
um final mais contemporâneo. Só que, mais uma
vez, ficou a sensação de que o tom usado poderia
ter sido um pouco menos radical. Sabe aquela máxima
"menos é mais"? Pois é. Corre à boca
pequena que Nicole Kidman teve que deixar o set de seu novo
filme, "The Interpreter" , para rodar o final de Mulheres
Perfeitas que vemos na tela. Dizem que a versão
anterior foi mal recebida pelo público nas exibições-teste.
Bom, eu realmente gostaria de saber como era esse final, já
que Mulheres
Perfeitas esteve sempre na periferia de ser um grande
filme e acabou morrendo na praia. Pode ser que a chave do
sucesso estivesse nesse desfecho que foi descartado. Ou não.
Tropeções à parte, resta dizer que as
questões abordadas pelo filme são atuais e pertinentes.
E estão longe de ser engraçadas. |
|
| |
Envie o
seu comentário sobre esta coluna.
Leia outras colunas de Érika Liporaci no Adoro Cinema. |
| |
| |
| |
|
|
 |