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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

O Homem como Lobo do Homem 

Quando os cinéfilos já estavam conformados com a probabilidade de um lançamento direto em DVD, eis que estréia em nossas telas O Mercador de Veneza. Não deixa de ser curioso que, após dois anos de defasagem - o longa foi exibido no Festival do Rio de 2004 -, esta adaptação de um dos mais brilhantes textos de William Shakespeare chegue aos cinemas brasileiros justo agora. Se tivéssemos que eleger uma única palavra para resumir a temática da história, certamente a eleita seria "intolerância". Não por acaso, a mesma palavra define com perfeição Crash, vencedor do Oscar deste ano. Triste é constatar que quatrocentos anos separam as duas tramas e as coisas não parecem ter evoluído muito desde então.

Costumeiramente inserida dentre as comédias do bardo, O Mercador de Veneza traz uma carga dramática e social que torna duvidosa tal classificação. Talvez "tragicômico" seja uma definição mais exata para este texto tão cheio de nuances que, por outro lado, não deixa de apresentar elementos comuns a outras comédias shakesperianas - como o expediente da mocinha inteligente que se traveste em mancebo.

Ambientado no século XVI, o enredo se subdivide em duas vertentes: a principal envolve Antonio, o mercador do título, e o agiota judeu Shylock; a secundária acompanha trajetória de Bassânio em sua disputa pela mão de uma donzela. O curioso é que é a trama secundária que dá origem à principal. Bassânio, um nobre veneziano falido, almeja se casar com a bela e rica Portia. Para tanto, precisa arranjar três mil ducados para ir a Belmonte e se apresentar como pretendente. Antonio, seu melhor amigo, não tem meios imediatos de ajudá-lo porque sua fortuna está toda no mar. Mas usa seu bom nome para obter um empréstimo com Shylock, que exige uma bizarra garantia: se o montante não for pago em dia, Antonio deve lhe dar o equivalente a uma libra de sua própria carne. Bassânio assusta-se, mas Antonio encara tudo como uma brincadeira. Além do mais, seus navios devem chegar a qualquer momento. O que ele não poderia prever é que perderia tudo num naufrágio, dando a Shylock a oportunidade que esperava para se vingar sem que a lei possa intervir. Afinal, por mais repulsivos que sejam os termos da dívida, ela é legítima e negar-lhe a cobrança poria em risco todo o sistema de governo.

À primeira vista, Shylock soa como um vilão absoluto e unidimensional. Mas um olhar mais atento revela um homem massacrado pelo preconceito e desprezo dirigido a seu povo. Sufocado por sua própria mesquinhez, que dele afasta até a filha, Shylock quer que alguém pague pelas ofensas que tem sofrido. De preferência, um nobre que lhe humilha logo nos primeiros minutos da trama. Pois, a despeito de ser bom e justo, Antonio não escapa de agir como o senso comum e também ele menospreza os judeus. Tal riqueza dramatúrgica faz com que soe absurda a acusação, endossada por intelectuais como Harold Bloom, de que a história é anti-semita. Mesmo porque uma obra plural como O Mercador de Veneza não pode ser engessada na cartilha do politicamente correto. Prova disso é que, logo após a 2ª Guerra, algumas montagens européias caracterizavam Shylock como uma vítima da intransigência do cristianismo. A importância e universalidade da obra também pode ser medida pela influência que exerceu sobre os mais diversos autores - dentre eles, Ariano Suassuna em seu "O Auto da Compadecida".

O diretor Michael Radford, mais conhecido pelo lírico O Carteiro e o Poeta, conduz com segurança essa fidelíssima adaptação. A abordagem é teatral, no bom sentido. O que equivale dizer que Radford confiou na força da história e de seus atores. Jeremy Irons e Lynn Collins são encantadores em cena, ainda que o filme seja um espetáculo concebido sob medida para Al Pacino brilhar em toda sua genialidade. Elogiar o trabalho de Pacino chega a ser uma obviedade, dado seu nível de excelência constante, mas é preciso dizer que sua interpretação é algo que por si só já vale o ingresso. Seu Shylock monstruosamente humano funciona como um espelho a refletir a que grau de violência uma fera acuada pode chegar. Que atire a primeira pedra quem conseguir.

 
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