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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Os
Doze de 2005
Com a chegada do novo ano, é hora de fazer um balanço
dos momentos mais significativos da sétima arte em
2005. Quase todo cinéfilo tem sua listinha dos "dez
mais". Ano passado inaugurei o precedente de relacionar
doze produções ao invés das tradicionais
dez. Algumas pessoas me apontaram tanto ausências
imperdoáveis como inclusões desmerecidas.
Então vamos combinar que essa não é
uma lista dos melhores, apenas um tributo a filmes que,
por algum motivo, fizeram a minha cabeça. E creiam-me,
foi uma missão quase impossível escolher apenas
uma dúzia num ano de tanta fartura cinematográfica.
Seguem, em ordem alfabética, meus preferidos de 2005.
Confiram!
Cabra-Cega,
Brasil. Direção: Toni Venturi
Através do isolamento forçado de um personagem,
o filme lança um comovente olhar sobre os militantes
da luta armada e joga luz sobre essa geração
que é constantemente retratada de forma maniqueísta,
como pessoas endurecidas e sem compaixão. A trama,
que se desenvolve com crescente tensão psicológica,
também passa longe do tom panfletário e opta
por uma abordagem intimista, potencializada ao máximo
pelas atuações inesquecíveis de Leonardo
Medeiros e Débora Duboc como os revolucionários
que vivem um amor em tempos de cólera. Outros destaques
são a montagem perfeita, a inspirada trilha sonora
e a eletrizante seqüência final.
Casa
de Areia, Brasil. Direção: de Andrucha
Waddington
As paisagens desérticas, dignas dos épicos
de David Lean, saltam aos olhos do primeiro ao último
fotograma. E a vastidão do cenário só
torna mais sufocante a desesperança de três
gerações de mulheres encalhadas nos confins
do Brasil. Maria, Áurea e, novamente, Maria. Cada
qual a seu tempo alterna reações de revolta
e conformismo mas, sobretudo, de impotência diante
de uma Natureza tão bela quanto impiedosa. A seqüência
do encontro de Áurea com o soldado (e o modo como
ele simplifica a teoria da relatividade para conquistá-la)
é de uma singeleza cativante. Um filme que faria
bonito no próximo Oscar se não tivesse sido
esnobado em favor daqueles "dois filhos".
Cinema,
Aspirinas e Urubus, Brasil. Direção: Marcelo
Gomes
Um pequeno grande filme, provando que nem sempre é
preciso um argumento elaboradíssimo para criar magia
na tela. Uma mistura de drama, comédia e road movie,
esplendidamente interpretada pelos atores e conduzida com
segurança de veterano pelo diretor estreante Marcelo
Gomes. A história, baseada no diário do avô
de Marcelo, é ambientada nos anos 40 e narra o inusitado
encontro, em pleno sertão, de um alemão em
busca de paz com um nordestino em busca de um sentido para
a vida. Somando esse argumento básico ao encanto
que o cinema proporciona, mesmo num comercial de Aspirina,
o resultado é pura poesia neo-realista.
Closer
- Perto Demais (Closer), EUA. Direção:
Mike Nichols
A partir dos encontros e desencontros entre quatro pessoas,
"Closer" traça um assustador painel das
relações afetivas no mundo moderno. Embora
a paixão se mescle com dominação e
os personagens usem o amor como desculpa para suas vilanias,
o filme resiste à tentação de fazer
o inferno a partir dos outros. Cada um é seu maior
antagonista e é o peso de suas próprias inseguranças
que põe tudo a perder. Não há o simplismo
das grandes maldades e sim a complexidade das traições
cotidianas. Ótimo texto valorizado pelo trabalho
visceral dos atores, em especial Natalie Portman e Clive
Owen.
Crash
- No Limite (Crash), EUA. Direção: Paul
Haggis
Crash significa colisão. Um título bem apropriado
para um filme onde os personagens não se encontram,
batem de frente. Todos estão tendo um péssimo
dia, pelas mais diferentes razões. Todos têm
preconceitos, mas são, de alguma forma, excluídos.
E todos estão loucos para descontar em alguém
a dor que sentem. E quando eles começam a se esbarrar,
seja no trânsito ou numa loja de conveniência,
a coisa fica feia. Histórias que gravitam em torno
de uma unidade temática ao invés de um protagonista
são terreno acidentado, mas o roteirista Paul Haggis
foi aprovado com louvor em sua primeira incursão
atrás das câmeras. Um filme perturbador e corajoso.
Harry
Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the
Goblet of Fire), ING/EUA Direção: Mike Newell
A expectativa era grande para este quarto episódio:
além da dificuldade de resumir em duas horas e meia
600 páginas repletas de reviravoltas e subtramas,
o resultado acabaria definindo o futuro da série
nas telas. Após dois filmes meio insossos nas mãos
de Chris Columbus, Alfonso Cuáron havia finalmente
acertado a mão no anterior ("O Prisioneiro de
Azkaban"). Mike Newell conseguiria manter a bola em
jogo? Felizmente, conseguiu. Foram preservados os pontos
essenciais da trama e o longa enveredou por um caminho eletrizante
e assustador, fazendo jus ao livro que é o preferido
dos fãs da série.
Herói
(Ying Xiong), China. Direção: Zhang Yimou
Um filme de visual deslumbrante, entrelaçado a um
roteiro inteligente e com uma simbologia que trata de temas
universais. Um poderoso monarca vive sobressaltado com as
tentativas de assassiná-lo, até que é
levado à sua presença um homem que diz ter
derrotado sozinho seus inimigos. O rei faz questão
de que o estranho lhe conte tudo sobre a façanha,
mas logo percebe que certos detalhes não se encaixam.
O confronto verbal entre os dois oponentes remete à
fábula de Sherazzade, onde é preciso ser convincente
para viver. Um ousado casamento de artes marciais e filme-cabeça,
que discute uma questão altamente filosófica:
a subjetividade da verdade.
Hotel
Ruanda (Hotel Rwanda), ING/EUA/ITA/África do
Sul. Direção: Terry George
Existem filmes cuja importância do tema transcende
méritos puramente cinematográficos. "Hotel
Ruanda" joga na nossa cara um conflito que o mundo
escolheu ignorar: o massacre que dizimou um milhão
de vidas em cem dias. Os ruandeses foram abandonados à
própria sorte, sem que nenhuma potência internacional
interviesse. No meio do caos, um simples gerente de hotel
salvou milhares de pessoas contando apenas com sua esperteza
e diplomacia. Chama atenção sobretudo a transformação
sutil e progressiva do protagonista de "bom selvagem"
deslumbrado com o european way of life num homem obstinado
na defesa da vida.
Nicotina
(idem), México. Direção: Hugo Rodriguez
Um dos filmes mais divertidos e menos vistos do ano. A história
gira em torno de uma transação entre um hacker
mexicano e um mafioso russo. O hacker deveria entregar um
CD contendo dados de contas na Suíça e receber
diamantes como paga. Mas as coisas saem e logo se
inicia uma bizarra caçada por toda Cidade do México,
envolvendo vários personagens que acabam se esbarrando
e se engalfinhando. O roteiro fragmentado lembra bastante
o estilo de Tarantino, casando com precisão cirúrgica
várias tramas paralelas até culminar num desfecho
explosivo após 93 minutos transcorridos em tempo
real - a trama tem início às 21h17 e termina
precisamente às 22h50.
A
Noiva-Cadáver (Tim Burton’s Bride Corpse)
e A
Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie
and the Chocolate Factory), EUA. Direção:
Tim Burton
Pois é, acabei dando um jeitinho de inserir um filme
a mais. Mas é preciso considerar que os dois longas,
além de serem estrelados por Johnny Depp e dirigidos
por Tim Burton, foram feitos simultaneamente. "A Noiva-Cadáver"
é um inspirado reencontro de Burton com a animação
em stop-motion, processo artesanal que exige paixão
e paciência infinitas. O roteiro, baseado numa lenda
do folclore russo, narra as desventuras de um rapaz que
é arrastado para o mundo dos mortos. Um dos detalhes
mais fascinantes é a inversão das noções
de vida e morte. Enquanto o mundo real é triste e
decadente, a terra dos mortos é colorida e cheia
de entusiasmo. Excelência técnica a serviço
de uma história bela e comovente. E o remake de "A
Fantástica Fábrica de Chocolate" já
nasceu clássico. Esta nova versão, embora
tenha um tom mais adulto, continua agradando aos pequenos
por seu visual colorido e exuberante. O estilo único
de Tim Burton, uma mistura do visual gótico das graphic
novels com a magia dos contos de fada, traduz com perfeição
o mundo bizarro do chocolateiro solitário. Também
é essencial a genialidade de Johnny Depp, ao compor
um Willy Wonka histriônico, maldoso e incrivelmente
afetado.
Querida
Wendy (Dear Wendy), Dinamarca. Direção:
Thomas Vinterberg
Uma inteligente alegoria do trauma que é ser adolescente
na sociedade americana, tão ferrenhamente ligada
às suas noções de vencedores e perdedores.
Um grupo de enjeitados se reúne numa espécie
de clube que idolatra armas, embora todos se digam pacifistas.
Eles se autodenominam "os dândis" e sua
filosofia é a de que devem portar armas, mas nunca
fazer uso delas contra ninguém. O filme é
cheio de conotações, inclusive sexuais, sobre
a fascinação do jovem pelas armas. Também
mostra a que ponto uma mente pode deturpar conceitos, travestindo
qualquer bobagem em nobre preceito. Muito boa também
é a ambientação, que dá à
cidadezinha um quê de Velho Oeste.
Rainhas
(Reinas), Espanha. Direção: Manuel Gómez
Pereira
Divertida comédia ao estilo "Mulheres à
beira de um ataque dos nervos" que, de quebra, reúne
num mesmo filme as grandes divas do cinema espanhol. A trama
se passa nos dias que antecedem o primeiro casamento homossexual
na Espanha - um evento coletivo, com ampla cobertura na
mídia - e enfoca alguns desses casais e suas respectivas
famílias, em especial suas mamacitas superprotetoras.
Situações como a da sogrona Argentina que
se instala de mala e cuia na casa do genro ou da estrela
de cinema constrangida porque seu filho vai casar com o
filho do jardineiro são um prato cheio para esse
tipo de comédia de costumes que os espanhóis
fazem de forma tão deliciosa..
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