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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

O Clube dos Doze

Com o fim do ano, todo cinéfilo costuma fazer sua listinha dos "10 mais". E eu não sou exceção. Adoro fazer um balanço das produções que, de uma forma ou outra, me grudaram os olhos na telona. Pois bem, a listinha começou com vinte e tantos filmes, que foram reduzidos a quinze e, finalmente, aos doze abaixo. E daí, por mais que tentasse analisar friamente - um crime em termos de cinefilia - os méritos de cada um, foi impossível chegar aos tradicionais dez. Afinal, já havia sido um sofrimento cortar coisas bacanas como Shrek 2 e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Os doze são tão diferentes entre si que tampouco tive condições de listá-los em forma de ranking. Resolvi a pendência com o artifício máximo dos indecisos: a ordem alfabética. Constam da lista tanto produções de 2003 que chegaram às nossas telas no começo do ano passado - caso de Peixe Grande e 21 Gramas - como o recém-lançado Edukators. Confiram!
•  Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset), de Richard Linklater

Continuação bem-sucedida do cultuado Antes do Amanhecer, de 1995, que encanta pela extrema sensação de realidade. O filme, rodado quase em tempo real, acompanha a conversa de um casal durante um curto passeio pelas ruas de Paris. Enquanto botam em pratos limpos nove anos de separação, Ethan Hawke e Julie Delpy conquistam a platéia que passou o mesmo tempo querendo saber o destino de seus personagens e ainda provam que verborragia não é sinônimo de chatice. Irresistível para qualquer um que já tenha vivido uma paixão complicada.

•  Anti-Herói Americano (American Splendor), de Robert Pulcini e Shari Berman

A partir da história real de Harvey Pekar, um fracassado que mesmo sem saber desenhar criou o sucesso dos quadrinhos "American Splendor", esse filme originalíssimo em sua forma mistura ficção, documentário e making of. O segredo do sucesso de Pekar deve-se ao fato dele ter levado, pela primeira vez, a história do americano médio - ou seja, medíocre - para o universo das HQ's, até então povoado de heróis perfeitos. Um excelente filme que teve pouquíssima visibilidade quando lançado no Brasil.

•  Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), de Michel Gondry

Curioso e fascinante, como tudo já escrito pelo roteirista Charlie Kaufman: garota decide tirar o ex da cabeça e procura uma empresa especializada em apagar lembranças indesejadas. Magoado, ele decide fazer o mesmo, mas, durante o procedimento, percebe que não quer esquecê-la e começa a esconder a amada na mente. O resultado é uma inteligente mistura de romance e ficção científica, além de ser uma investigação sobre o poder de sugestão da memória e sobre o quanto nossa percepção da realidade é afetada por ela. E tudo isso sem o ranço de ser "filme-cabeça". Genial.

•  Contra Todos, de Roberto Moreira

Uma família de classe média baixa tem uma vida harmoniosa e perfeita. Pelo menos, aos olhos de quem está de fora. Basta examiná-los de perto para que a ilusão se desfaça. Essa é a proposta de Roberto Moreira em seu eletrizante longa de estréia. O filme foi muito comparado a O Invasor, embora eu veja mais pontos de tangência com Beleza Americana, especialmente pela montagem esperta do desfecho e pelo aspecto de pequenos enganos levarem a terríveis conseqüências.

•  Diários de Motocicleta (The Motorcycle Diaries), de Walter Salles

Impossível não citar um dos filmes mais comentados e queridos dos últimos tempos, que retrata a viagem que o jovem Ernesto Guevara - anos antes de se tornar o "Che" - fez pela América em companhia do amigo Alberto Granado. Filmes que mostram ritos de passagem já são emocionantes por natureza... imagina quando um dos protagonistas representa aquele que viria a ser a esperança de toda uma geração. Mais do que um belo filme, Diários... se impõe pela sua importância e simbolismo.

•  Edukators (Die Fetten Jahre Sind Vorbei), de Hans Weingartner

"Os Educadores" têm um modo inusitado de protestar contra o sistema: invadem mansões, trocam móveis de lugar e deixam mensagens enigmáticas. Até que uma ação dá errado, a brincadeira evolui para um seqüestro e eles ainda têm que lidar com um triângulo amoroso que ameaça desuni-los. O filme, que mescla com muita eficácia os dramas pessoais dos personagens com discussões sociais mais genéricas, seria apenas simpático se não fosse a seqüência final. Quando tudo aponta para um desfecho certinho, a virada espetacular, amparada por uma montagem perfeita, dá nova dimensão ao longa.

•  Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola

Uma história que fala de solidão e desencanto sem apelar para o tom depressivo ou o sentimentalismo barato. Bob e Charlotte são turistas involuntários em Tóquio. Ele, um astro de cinema decadente, está lá para gravar um comercial e não entende o idioma nem o povo japonês. Ela acompanha o marido, um fotógrafo famoso que a deixa largada no hotel. Sofrendo com o fuso e a solidão, eles logo se tornam cúmplices para suportar aquele estranho exílio. Um sensível contraste entre o cinismo do homem maduro que "já viveu demais" e a fragilidade da garota que quer tomar um rumo, mas não sabe bem qual.

•  Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11), de Michael Moore

Outro filme que conquista pelas intenções. Neste caso, desmoralizar o presidente George W. Bush. E também pelo mérito de provar que um documentário pode ser vibrante e divertido. É uma injustiça acusarem o figuraça Michael Moore de manipulador, já que sua doutrina anti-Bush é exposta com muita clareza desde o primeiro fotograma. Não há mensagens subliminares no filme, tudo é muito direto. Faz rir e, sobretudo, pensar.

•  Kill Bill - Volume 2 (idem), de Quentin Tarantino

Não deixa de ser curioso esse filme figurar na lista, já que detestei a primeira parte dele. Mas acontece que este Volume 2 é tudo que o 1 não conseguiu ser. Tarantino manteve os acertos técnicos da primeira parte - como o apuro estético, os cortes perfeitos e um raro talento para extrair beleza da carnificina - e a eles mesclou os ingredientes que haviam faltado: a ironia, o humor negro, a precisão dos diálogos. Há espaço para o não-dito, para o subtendido, para uma troca cúmplice de olhares. Sutilezas narrativas que a ação desenfreada do Volume 1 não permitia. E tudo isso sem deixar cair o ritmo da história, que deixa o espectador sem fôlego da primeira à última cena.

•  Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (Big Fish), de Tim Burton

Uma fantasia no melhor estilo Tim Burton, alternando aventura fantástica e um emocionante drama familiar. Edward Bloom é um falastrão que sempre adorou contar histórias inacreditáveis sobre sua juventude que fascinam todos, com exceção de seu filho Will. Anos depois, Ed está morrendo e Will retorna à casa paterna para tentar separar o homem do mito e descobrir a verdade sobre Edward Bloom. O filme se desenvolve em dois universos: no "real", as dificuldades de relacionamento entre pai e filho; no fantástico, as divertidas histórias de pescador de Edward. Pouco a pouco, essas realidades antagônicas se aproximam e, por fim, se mesclam com lirismo e delicadeza. Delicioso.

•  Redentor, de Claudio Torres

Difícil classificar essa explosão tropicalista que é Redentor. Comédia dramática? Ópera-bufa? Épico bíblico? É tudo isso e nada disso. É um filme ácido em seu sarcasmo, consistente em sua crítica social, trágico ao narrar a descida aos infernos do pacato Célio, um homem comum arrasado por acontecimentos que escapam ao seu controle e minam seu limitado senso de ética, levando-o a um caminho sem volta. Que bom que o diretor Claudio Torres e seu elenco nota 10 tiveram a coragem de realizar este filme único.

•  21 Gramas (21 Grams), de Alejandro González Iñárritu

Um acidente de carro entrelaça vidas e desencadeia obsessões: Paul precisa se aproximar da mulher que o salvou, Christina quer se vingar do homem que bagunçou sua vida de novo e Jack não consegue assimilar o porquê de ter levado uma rasteira de Deus justamente quando tinha se tornado um homem bom. O título se refere à constatação científica de que o corpo humano perde cerca de 21 gramas no momento da morte. O que representam 21 gramas? O peso da alma? Da consciência? Uma cruel metáfora de que o sofrimento pela perda de alguém vale muito pouco quando posto em termos racionais.
 
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