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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Tirando um Sarro dos Estereótipos
Volta e meia algum diretor de renome cai em desgraça perante
a intelligentzia cinematográfica. Aconteceu com
Woody Allen, que foi acusado de ter se vendido ao sistema por conta
de sua safra mais recente apresentar filmes mais divertidos e menos
angustiados. O que todos parecem esquecer é que Allen começou
sua carreira com comédias desmioladas, como O
Dorminhoco. Pedro Almodóvar foi outro que recebeu críticas,
no mínimo, estranhas por ocasião do lançamento
de Fale
com Ela: acusaram o diretor de ter abandonado o seu característico
enfoque nas mulheres. Mas Almodóvar já tinha voltado
suas lentes para personagens masculinos antes, como em "A Lei do
Desejo". Enfim, tem sempre uma parcela de público tentando
impor regras à criatividade alheia e que reage magoada quando
os diretores não fazem exatamente o que se espera deles.
É esse suplício que vivem atualmente os irmãos
Coen. Desde seu filme anterior, O
Amor Custa Caro, os irmãos mais sarcásticos do
cinema americano têm atraído uma certa má- vontade.
Estranho, já que, mesmo sendo uma comédia romântica,
"O Amor Custa Caro" está longe de ser comportadinho. O que
dizer de um filme onde os protagonistas, apesar de apaixonados,
continuam dando golpes em suas caras-metades?
Mas nem mesmo o crime de fazer um filme diferente dos demais pode
ser imputado aos Coen neste novo trabalho. Eu já tentei e
não consigo detectar o porquê da revolta dos críticos.
Matadores
de Velhinha é um filme totalmente coerente com a carreira
de Ethan e Joel Coen. Aliás, o tom narrativo é bastante
parecido com o de outras produções conceituadas, como
E
Aí, Meu Irmão, Cadê Você? e até
mesmo o oscarizado Fargo.
A não ser que se leve a sério o que pretende ser uma
grande gozação, uma piada em cima dos estereótipos.
O professor - aliás, nem ficamos sabendo se ele é,
de fato, professor - interpretado por Tom Hanks é uma deliciosa
caricatura. Tem modos cavalheirescos e recita poemas de Edgar Allan
Poe, mas basta uma olhada atenta para ver o quanto seu comportamento
é falso. Desde a barbicha esquisita até a risadinha
suína. Um barato. E seus comparsas também representam
um apanhado de estereótipos: o negro abusado com linguagem
de malandro, o oriental sério e caladão, o atleta
fortão que é praticamente retardado e o metido a inteligente
que é comandado pela mulher. Essa pequena galeria de tipos
destila todo o preconceito vigente não só no interior
dos Estados Unidos, mas em qualquer lugar. E não nos esqueçamos
da velhinha interpretada por Irma P. Hall: religiosa ao extremo,
simples, direta, enlutada há 20 anos, implicante e levemente
fofoqueira.
O filme conta a história de cinco picaretas, liderados pelo
professor G. H. Dorr, que planejam roubar um cassino. Dorr aluga
um quarto na casa de uma senhora viúva e apresenta seus colegas
como músicos clássicos, embora nenhum deles saiba
tocar nada. Sob o pretexto de ensaiar no porão, eles pretendem
cavar um túnel até o cofre do cassino. Mas a bisbilhotice
da senhoria, aliada à falta de profissionalismo dos caras,
põe tudo em risco. "The Ladykillers" é a refilmagem
de uma comédia inglesa homônima de 1955 - que aqui
no Brasil se chamou "O Quinteto da Morte" -, estrelada por Alec
Guiness e Peter Sellers. Não tenho como tecer comparações,
já que não assisti ao original. Na verdade, não
cabem comparações. Esse é um recurso que geralmente
serve de mera desculpa para denegrir a versão mais recente.
O que se pode dizer sobre o filme é que, além de divertidíssimo,
ainda consegue surpreender. À medida que avança a
história parece apontar para um desfecho que acaba sendo
bem diferente do que vem a acontecer. O personagem de Tom Hanks,
por exemplo, tem um destino totalmente inesperado. E tudo de um
modo debochado e com aquele tom casual que é bem característico
de outros filmes dos Coen. Falsas pistas e expectativas frustradas
que levam a um final que é plenamente satisfatório,
sem que seja necessário apelar para soluções
inverossímeis e de última hora. O elenco todo está
muito bem, com destaque para o tipo irritante criado por Tom Hanks
e o vigor da velhinha de Irma P. Hall. Aliás, é bem
provável que o longa consiga uma mísera indicação
ao próximo Oscar, na categoria melhor atriz coadjuvante,
já que o trabalho de Irma tem sido a coisa mais elogiada
do filme.
Quase todas as críticas negativas sobre este filme continham
uma estranha ressalva, a de que "pelo menos, o filme é melhor
do que 'O amor custa caro'." O filme, de fato, é bem melhor
do que seu antecessor. Mas é preciso tirar o "pelo menos". |
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