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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Com Muito Prazer 

O Libertino provoca sentimentos paradoxais no espectador. Como produto cinematográfico, é cheio de defeitos: roteiro esburacado, direção frouxa, trilha sonora equivocada e uma fotografia tão tosca que em certos momentos chega a incomodar a retina. Tudo coroado por um desfecho piegas que destoa do tom da história. Mas, estranhamente, o filme consegue driblar suas incontáveis deficiências e capturar o espectador. Em primeiro lugar, por divulgar a pouco conhecida biografia de um personagem fascinante. E também por ter a sorte de contar com o ator perfeito para o papel-título - Johnny Depp nos brinda com mais uma interpretação brilhante. Logo no plano de abertura, um hipnótico Depp olha diretamente para a câmera e avisa, em tom de confidência: "Vocês não vão gostar de mim. As mulheres vão sentir repulsa e os homens, inveja". Isso não é verdade. O público vai gostar, e muito, dele.

Esta adaptação da peça de mesmo nome escrita em 1994 pelo dramaturgo Stephen Jeffreys conta a história do inglês John Wilmot Rochester, ou Segundo Conde de Rochester, subversivo e hedonista gênio literário do século XVII (nascido em 1647 e morto em 1680, com apenas 33 anos de idade). A trama se concentra numa época específica de sua breve trajetória: quando ele é convocado pelo rei Charles II a escrever uma peça para impressionar um importante emissário da corte francesa. À mesma época, Rochester conhece a atriz iniciante Elizabeth Barry e resolve ajudá-la a se tornar uma estrela de primeira grandeza.

Por mais folclórico que pareça, o Conde de Rochester foi um personagem real e estima-se que a maior parte das bizarrices mostradas na tela tenham de fato acontecido. Rochester era conhecido por suas bebedeiras homéricas, bissexualidade explícita, intelecto brilhante e desprezo crônico pelas convenções. Sua incessante busca pelo prazer escandalizava a sociedade londrina de então, constrangendo o rei e a corte. Reza a lenda que, numa das ocasiões em que caiu em desgraça perante Charles II, Rochester migrou para uma província e dava consultas como médico especialista em fertilidade. Em sua literatura misturam-se erotismo, sarcasmo e provocação ao establishment. Seu Sodom, or the Quintessence of Debauchery é considerado como a primeira obra pornográfica impressa - um século antes do Marquês de Sade. Sobre seu papel no aperfeiçoamento artístico de sua amante Elizabeth Barry, que viria a se tornar a grande dama do teatro da época da restauração inglesa, há controvérsias. Os historiadores modernos consideram esta versão uma fantasia disseminada após a morte de Rochester, assim como também não há consenso sobre sua tão alardeada conversão à religião no leito de morte.

Por todos esses dados curiosos, O Libertino mantém o interesse da platéia mesmo não tendo se convertido no filme incrível que poderia ser. Além do magnetismo quase vampiresco de Depp em cena, há a expressividade de Samantha Morton e a forte presença de John Malkovich. O filme vai interessar especialmente o público ligado ao teatro e às artes em geral, por mostrar os bastidores de uma época em que as mulheres haviam acabado de ser admitidas no palco. Em uma cena, uma personagem mostra sua determinação em dar o melhor de si, com medo de que o recém-adquirido privilégio lhe seja tirado novamente. Uma curiosidade: essa conquista do sexo feminino é retratada em outro filme recente. O ótimo A Bela do Palco trata justamente dessa transição entre os papéis femininos interpretados por homens e a decisão do rei Charles II de permitir que as mulheres se tornem atrizes.

Filme de estréia do diretor Laurence Dunmore, O Libertino estreou nos cinemas ingleses e americanos no ano passado e amargou um retumbante fracasso de bilheteria. Talvez por conta disso tenham sido infrutíferas as tentativas do estúdio em chamar a atenção para o desempenho de Johnny Depp e, quem sabe, cavar mais uma indicação ao Oscar. Uma pena. A Academia, que gosta tanto de premiar pelo conjunto da obra, deveria estar atenta a mais essa oportunidade de reparar a injustiça de nunca ter dado uma estatueta ao ator mais brilhante da atualidade.

 
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