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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

A Metamorfose de DiCaprio 

Leonardo DiCaprio despontou no começo dos anos 90 como grande promessa do cinema mundial. Logo em um de seus primeiros filmes, "Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador" (1993), foi indicado ao Oscar de melhor coadjuvante. O ator tinha 19 anos e roubava a cena como um jovem deficiente mental de 14 que atormentava a vida do irmão mais velho, interpretado por Johnny Depp. Logo a seguir, Leonardo escandalizou algumas mentes pudicas ao protagonizar um romance homossexual em "Eclipse de Uma Paixão" (1995), com direito a beijo na boca e tudo. No ano seguinte, exibiu seu talento emergente num Romeu pós-moderno e psicodélico em Romeu + Julieta, papel que lhe valeu o prestigiado Urso de Prata no Festival de Berlim daquele ano. A julgar por esse brilhante começo, parecia que o jovem de cabelos louros e olhar enviesado estava destinado a ser o maior ator de sua geração.

Mas aí veio um tal Titanic (1997) e a carreira do moço quase foi a pique junto com o navio. Para o bem e para o mal, Leonardo virou febre mundial. De repente, seu rosto estampava dez entre dez revistas destinadas a adolescentes. Só se falava nele, um fenômeno de superexposição poucas vezes visto com tamanha intensidade. Daí para se tornar alguém que não era levado muito a sério - efeito que alguns definem como "maldição Titanic" - foi um pulo. Por aqui, a dicapriomania gerou mais uma das polêmicas de Caetano Veloso, que disse que "devoraria Leonardo DiCaprio, mas no sentido antropofágico". Piada ou não, a curiosa declaração ficou eternizada na canção Eu Te Devoro, de Djavan ("Noutro plano, te devoraria tal Caetano a Leonardo DiCaprio...").

Desesperado em salvar a reputação, DiCaprio investiu no independente A Praia (2000), projeto do diretor cult Danny Boyle. Sem trocadilho, foi mais um tiro na água. O filme - que acabou famoso tão-somente por ter sido rodado no arquipélago de Phuket, aquele devastado pela tsunami - foi péssimo de crítica e público, culminando numa indicação ao Framboesa de Ouro de Pior Ator. Honraria duvidosa com a qual Leo já havia sido agraciado dois anos antes, ao ser eleito a Pior Dupla pelos irmãos gêmeos de O Homem da Máscara de Ferro.

Em 2002, quando o todo-poderoso Martin Scorsese selecionou o ator como seu novo astro preferencial, parecia que finalmente sua carreira iria deslanchar. Mas que nada. Sua atuação em Gangues de Nova Iorque foi, no mínimo, burocrática. E a parceria seguia sem gerar frutos: embora tenha abiscoitado um Globo de Ouro e obtido uma indicação ao Oscar por O Aviador, DiCaprio ainda não convencia. Apesar de já ser homem feito, sempre parecia faltar-lhe uma certa maturidade dramática. Também seu aspecto físico contribuía para limitá-lo a papéis juvenis, tanto que sua melhor interpretação depois de adulto foi justamente como o estelionatário adolescente de Prenda-me Se For Capaz.

Mas nada como uma melhor de três. Na terceira parceria entre DiCaprio e Scorsese, Os Infiltrados, algo mudou. Leonardo DiCaprio finalmente virou homem. E não vai aí nenhum questionamento à sexualidade do rapaz e sim ao seu amadurecimento artístico. Na pele de Billy Costigan, irlandês esquentadinho que não pensa duas vezes antes de arrebentar as fuças de quem atravessar seu caminho, DiCaprio dá show. Sedutor, fortão, sarcástico e, principalmente, muito seguro de si. Aos 32 anos, o baby face cresceu e apareceu. A promessa que parecia frustrada se concretiza mais de uma década depois.

E a revolução pessoal do ator não parou por aí. Certamente 2006 ficará marcado na sua vida como o ano em que ele recuperou o tempo perdido. Após arrasar em Os Infiltrados, DiCaprio também manda incrivelmente bem em Diamante de Sangue. O filme é uma mistura de aventura com drama político, que tem como cenário o caos causado pela guerra civil de Serra Leoa nos anos 90. Leonardo é Danny Archer, um contrabandista de diamantes sul-africano que não mede esforços para pôr as mãos num enorme e raro diamante rosa. E o ator parece muito à vontade como um africâner cheio de disposição e malandragem, com direito a sotaque diferenciado e tudo.

Para coroar essa excelente fase, DiCaprio obteve uma dupla indicação ao Globo de Ouro de melhor ator/drama deste ano. Deve ganhar por Os Infiltrados. Não que sua performance em Diamante de Sangue seja inferior. Mas o filme de Martin Scorsese tem maior peso e, por já despontar como um dos favoritos ao Oscar, um Globo de Ouro por este trabalho praticamente carimbaria o passaporte do rapaz rumo à tão cobiçada estatueta careca. Todos esses prognósticos poderão ser conferidos ainda neste mês. Os premiados com o Globo de Ouro serão conhecidos na noite do dia 15 e as indicações ao Oscar, na manhã do dia 23.

Boa sorte, Leonardo. Dessa vez você merece.

 
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