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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Bem-Vindos
à Selva
Peter Jackson está podendo. Isso é fato. Depois
que o arriscado empreendimento de levar às telas
a trilogia "O Senhor dos Anéis" deu certo, os mesmos
executivos que desdenhavam das pretensões do cineasta
neozelandês passaram a desenrolar o tapete vermelho
para seus projetos. Para capitanear essa nova versão
de King
Kong, Jackson recebeu o mais alto cachê já
pago a um diretor: 20 milhões de dólares.
E o orçamento total passou dos 200 milhões.
Nada mau para quem começou fazendo filmes trash.
Em primeiro lugar, é preciso esquecer aquela versão
lamentável de 1976, que só costuma ser lembrada
por ter lançado Jessica Lange. Este novo trabalho
de Peter Jackson é um remake do original
de 1933, que pode até parecer tosco para os espectadores
de hoje, mas foi revolucionário à sua época.
Vale lembrar que o cinema era sonorizado há apenas
cinco anos. Então, dá pra imaginar o frisson
que causou ver nas telas um macaco gigante escalando o recém-construído
Empire State Building. O longa estabeleceu novos recordes
de bilheteria e salvou da falência a produtora RKO
Radio Pictures, sendo relançado nos cinemas americanos
quatro vezes entre 1933 e 1952, com novas cenas sendo incluídas
a cada reestréia.
Peter Jackson faz uma série de referências
ao filme-matriz. Há, inclusive, rumores de que cogitou
filmar em preto-e-branco. Fay Wray, estrela do original,
deveria fazer uma participação reproduzindo
a célebre frase final (Ah, não. Não
foram os aviões. A bela matou a fera), mas a nonagenária
atriz faleceu ano passado. A fala acabou indo para outro
personagem, mas Jackson achou um modo de homenageá-la.
Uma dica: é logo na meia hora inicial.
O filme é ambientado em 1933, decisão acertada
que possibilita uma bela reconstituição da
Nova Iorque do período da Grande Depressão.
O cineasta Carl Denham está numa enrascada: além
de perder o patrocínio, sua atriz principal acaba
de deixar o projeto e ele precisa encontrar outra que caiba
no mesmo figurino. Ann Darrow, atriz de teatro desempregada,
surge como resposta às suas preces e a equipe parte
rumo às locações num cargueiro fretado.
O que todos desconhecem é que Denham pretende chegar
a uma ilha inexplorada. Lá eles encontrarão
uma população selvagem e criaturas apavorantes.
O resto todo mundo já sabe: Ann é capturada
para ser oferecida como sacrifício ao gorila gigantesco,
que acaba se revelando muito mais humano do que algumas
criaturas racionais que andam à solta por aí.
É complicado emitir uma opinião sobre King
Kong. Embora tenha méritos indiscutíveis,
o longa também tem sérios problemas. E todos
os eventuais tropeços são decorrentes de um
defeito principal: três horas de duração
para uma história que poderia ser contada em duas
- o filme de 1933 tinha apenas 94 minutos. A primeira metade
é irretocável, mas a segunda apresenta excessos
que comprometem o todo. A empolgação de Peter
Jackson redunda em seqüências mais longas do
que o desejável e outras que poderiam ser totalmente
suprimidas. Um bom exemplo é quando a equipe cai
num vale infestado de aranhas e lesmas gigantes. Além
de nada acrescentar à trama, o espectador ainda tem
que suportar algumas das cenas mais nojentas da história
do cinema. Até mesmo o aguardado desfecho com Kong
escalando o Empire State enquanto os aviões o alvejam
poderia ser um pouco mais breve. A cena, de tão esticada,
acaba tendo seu impacto minado. Jackson é um diretor
talentoso e de imaginação febril. É
compreensível sua ânsia em dar o melhor de
si, mas às vezes é como diz o ditado: menos
é mais. Talvez por isso King
Kong seja melhor quando mescla o humor e a auto-paródia
à ação e menos interessante quando
se apóia excessivamente no virtuosismo técnico.
As cenas no barco, por exemplo, são perfeitas. Algumas
tomadas parecem ser um sarro com Titanic.
Impressão reforçada pelo fato do filme de
James Cameron dividir com O
Senhor dos Anéis e Ben-Hur
o título de mais premiado da história do Oscar
(11 estatuetas cada).
Em contrapartida, um dos grandes méritos do filme
repousa no gordinho Jack Black. Seu personagem, um cineasta
tresloucado que não se detém diante de nada,
é uma mistura de Ed Wood com Howard Hughes. E com
um olhar insano e um penteado que o deixam parecido com
Orson Welles. Black, que ficou conhecido como o vendedor
de discos que expulsava os clientes aos gritos em Alta
Fidelidade, vem se especializando em tipos obsessivos.
Já foi fanático por mulheres em O
Amor é Cego, novamente por música em Escola
de Rock e, agora, pela sétima arte. A ponto de
se jogar na frente de uma manada de dinossauros para capturar
um bom plano ou continuar girando a manivela enquanto os
colegas são pisoteados. Um senhor trabalho. A bela
Naomi Watts também se sai bem e consegue driblar
as armadilhas de sua personagem. Não deve ser nada
fácil demonstrar carinho por um gorila virtual de
forma convincente. Uma pena que os ótimos Adrien
Brody (de O
Pianista) e Jamie Bell (o eterno Billy Elliot, agora
com 19 anos) sejam desperdiçados em papéis
insossos.
Outro acerto é o King Kong propriamente dito. A proporção
menor (um gorila de sete metros e não mais de quinze)
dá maior credibilidade ao, digamos, relacionamento
entre Kong e Ann. A expressão facial, alternando
ferocidade e extrema solidão, também ajuda
a criar empatia com um ser que, a rigor, só deveria
nos inspirar terror. A técnica utilizada foi a mesma
do Gollum de O
Senhor dos Anéis (aquele do "meu precioso", lembram?).
O personagem digital é sobreposto aos movimentos
e expressões criados pelo ator Andy Serkis, que também
deu vida ao Gollum. Serkis fez um "laboratório" com
gorilas na África e interpreta, de quebra, o cozinheiro
do navio.
King Kong é um filme imperfeito, mas que precisa
ser visto pelo majestoso espetáculo que proporciona.
Nesse ponto, Peter Jackson conseguiu o que pretendia. Seu
filme é tão impressionante para nós
quanto seu antecessor para o público dos anos 30.
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