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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

A Redenção de Tarantino


Há alguns meses vários amigos ficaram aborrecidos comigo. Tudo por conta de uma crítica que escrevi, enxovalhando Quentin Tarantino e seu fetichista Kill Bill - Volume 1. Achei imperdoável que um dos cineastas mais criativos e inteligentes da atualidade nos tivesse brindado com um filme que não passava de uma compilação de sangue esguichando e membros sendo decepados. E isso após um jejum de seis anos. Tempo que passou, segundo ele mesmo, "vendo filmes e tendo idéias". O Volume 1, a despeito do início promissor, logo se revela um mero pretexto para Tarantino exercitar sua mais recente obsessão: os filmes à moda de Bruce Lee. Até mesmo a roupinha amarela usada por Uma Thurman era um clone da vestimenta do astro em seu último filme, "Bruce Lee no Jogo da Morte". Mas, ainda assim, Kill Bill - Volume 1 foi um grande sucesso entre os cinéfilos. Não adiantou argumentar que Tarantino havia abandonado os diálogos mordazes e os roteiros redondinhos que o consagraram para se concentrar numa porradaria interminável e cansativa. Depois de um reencontro meio frustrante com a obra do cineasta, eu estava totalmente desmotivada para assistir à conclusão da saga. Quando soube que Kill Bill - Volume 2 seria um dos filmes mostrados à imprensa pelos organizadores do Festival do Rio, respirei fundo e me resignei a cumprir uma obrigação burocrática.

Felizmente, o Volume 2 é tudo que o 1 não conseguiu ser. O cineasta manteve os acertos técnicos da primeira parte - como o apuro estético, os cortes perfeitos e, sobretudo, um raro talento para extrair beleza da carnificina - e a eles mesclou os ingredientes que haviam faltado: a ironia, o humor negro, a precisão dos diálogos. Há espaço para o não-dito, para o subtendido, para uma troca cúmplice de olhares. Sutilezas narrativas que a ação desenfreada do Volume 1 não permitia. E tudo isso sem deixar cair o ritmo da história, que gruda os olhos do espectador na tela da primeira à última cena. Há toda uma subversão de valores: assuntos que deveriam ser sérios são tratados de modo debochado, assim como o que deveria ser ridículo ganha uma aura de respeitabilidade. Ao invés de centrado no clima de kung fu, agora há toda uma atmosfera de western. Não posso deixar de pensar que o cineasta "se perdeu" ao se embrenhar nos valores orientais e só "se encontrou" ao voltar às suas raízes. Também é surpreendente que Tarantino tenha realizado duas partes que, embora complementares, se mostram tão divergentes em termos de abordagem. Até mesmo a interpretação de Uma Thurman, que já era boa na primeira parte, ganhou mais densidade. É impressionante como a atriz - tão magrinha e delicada - é convincente como a assassina implacável em busca de vingança. Enfim, a impressão que fica é a de que a primeira parte é um rascunho e esta segunda seria o filme propriamente dito.

É claro que o diretor continua fazendo piadinhas a torto e a direito. A diferença é que desta vez ele não excluiu a platéia. Um dos trechos mais divertidos é o que mostra o treinamento da personagem de Uma Thurman com o mestre cantonês (que odeia ser confundido com japonês) Pei Mei. A figuraça aparece em vários filmes de kung fu feitos nas décadas de 70 e 80 e é conhecido como o "Monge da Sobrancelha Branca". Já o xerife McGraw é o mesmo personagem assassinado pelos irmãos Gecko no início de Um Drink no Inferno, longa de Robert Rodriguez com roteiro de Tarantino. Mas o bom é que o espectador que não captar as brincadeiras metalingüísticas vai se divertir do mesmo modo, já que as cenas são boas independente de seus significados ocultos. Vale destacar, ainda, a brilhante seqüência final, que dá várias pistas falsas e surpreende porque acaba nada sendo do jeito que se espera. Outro trecho especialmente inspirado é o que se passa na igrejinha de El Paso e explica o que ficou truncado na primeira parte.

É isso aí. Esse é o verdadeiro Tarantino. Fico feliz de saber que ele está de volta.
 
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