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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Felizes para Sempre 

O espectador pode, à primeira vista, ter uma certa resistência contra Johnny e June, cinebiografia de Johnny Cash. Afinal de contas, o cantor americano nunca foi muito conhecido por aqui, embora sua folk music com letras tão atormentadas quanto sua personalidade tenha influenciado gente como Bob Dylan. Mas nada de pânico. Não há pré-requisitos. Quem nunca ouviu falar em Johnny Cash pode ir ao cinema sem susto.

A trama mostra, em seqüência cronológica, os dramas que fizeram de Cash aquela figura soturna e infeliz: aos doze anos, perde o irmão que idolatrava num acidente traumático. A tragédia familiar só aumenta o desprezo que o pai já sentia por ele e transforma-se numa carga emotiva que irá assombrá-lo pelo resto da vida. O serviço militar é a desculpa para ganhar o mundo e, após uma temporada na Força Aérea, Johnny muda-se para Memphis e consegue gravar o primeiro disco, alcançando sucesso quase instantâneo. Logo, está dividindo o palco com astros como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis. Inicia, ainda, uma bem-sucedida parceria musical e afetiva com June Carter, cantora que sempre admirou. Embora apaixonados, os dois passam muitos anos sem poder assumir uma relação pois já são casados com outras pessoas. Mas esse não é o maior dos problemas do cantor, que simplesmente não consegue superar seus traumas de rejeição e se afunda em álcool e anfetaminas. Só quando June fica a seu lado ele consegue retomar a carreira quase arruinada e obter a estrutura familiar que sempre buscou desesperadamente.

O roteiro, escrito por Gill Dennis em parceria com o diretor James Mangold, é linear e limita-se a acompanhar a trajetória do músico, desde a infância pobre numa fazenda de algodão, passando pelos períodos sombrios regados a drogas, até o reencontro do equilíbrio graças à dedicação de June. Mangold, dos bons Garota, Interrompida e Identidade, pouco acrescenta em termos de direção. O que impede que o filme seja mais uma daquelas biografias musicais insossas é a interpretação apaixonada de seus protagonistas. Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon, que foram escolhidos pelos próprios biografados (Johnny Cash e June Carter morreram em 2003, quando o longa ainda estava em fase de pré-produção), passaram por um intensivão de preparação vocal durante seis meses para que pudessem cantar todas as músicas do filme com suas vozes. O resultado é o perfeito entrosamento da dupla, tanto nas seqüências dramáticas quanto nos números musicais. Façanha que se torna ainda mais impressionante se considerarmos que a dicção de Phoenix (que tem lábio leporino) não é das melhores. Mas o fascínio de sua presença em cena vai além de méritos puramente profissionais. Percebe-se que o ator colocou a alma na interpretação, como se aquele fosse o último papel de sua vida. E talvez tanta simbiose tenha raízes profundas. Assim como Johnny Cash tinha um irmão morto a lhe assombrar, Joaquin Phoenix também costumava ser visto como o irmão menos interessante de River Phoenix, que morreu jovem e no auge da carreira. Atenção para a cena em que Johnny faz seu primeiro teste para uma gravadora e o produtor o repreende, pedindo que cante algo realmente sincero. E ele canta, com um olhar de fúria e ressentimento capaz de penetrar no mais insensível dos corações.

Johnny e June ganhou três Globos de Ouro (ator, atriz e filme comédia/musical) e recebeu cinco indicações ao Oscar (ator, atriz, som, edição e figurino). Reese é favoritíssima ao Oscar. Já Phoenix, embora tenha abiscoitado o Globo de Ouro, tem poucas chances contra Philip Seymour Hoffman, que vem enfileirando prêmios por sua performance como o escritor Truman Capote - a divisão do Globo de Ouro nas categorias drama e comédia/musical possibilitou a premiação de Phoenix. Também é provável que o desempenho de Johnny e June nas bilheterias brasileiras seja prejudicado pelo fato de ter estreado na esteira de produções mais importantes, como o sofisticado Boa Noite, e Boa Sorte e o apaixonante romance Brokeback Mountain. Mas o espectador que se dispor a privilegiar o filme vai assistir a uma bela história de amor da vida real. Afinal, Johnny e June viveram felizes para sempre.

 
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