|
 |
|
| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
No Coração das Trevas
A curiosidade em torno de O
Jardineiro Fiel começou quando o brasileiro Fernando
Meirelles assumiu a direção na última
hora (Mike Newell havia acabado de deixar o projeto) e aumentou
ainda mais com sua seleção para a competição
oficial do Festival de Veneza deste ano. Ainda que tenha perdido
o Leão de Ouro, a expectativa só fez crescer
quando o longa encerrou o Festival do Rio em evento de gala
- com direito à presença do diretor e do astro
Ralph Fiennes. Agora é a vez do grande público
conferir o resultado dessa grande produção anglo-americana
baseada no best-seller de John le Carré e capitaneada
com extrema competência e segurança pelo diretor
de Cidade
de Deus.
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o filme
não tem absolutamente nada a ver com Cidade
de Deus. Talvez a única semelhança seja
a belíssima fotografia em tons de terra, ambas criação
do uruguaio César Charlone (indicado ao Oscar por Cidade
de Deus). Fora esse detalhe, os dois filmes não
poderiam ser mais diferentes. O
Jardineiro Fiel é um filme de emoções
represadas, de acordo com a personalidade de seu protagonista
- um diplomata britânico em missão no Quênia
que, nas horas vagas, faz da jardinagem sua conexão
com um mundo que parece não entender muito bem.
O pacato cidadão Justin Quayle é arrancado de
sua rotina quando sua esposa Tessa, uma ferrenha ativista
pelos direitos humanos, sofre uma emboscada numa estrada e
é brutalmente assassinada. As autoridades querem fazer
parecer que Tessa estava tendo um caso com o médico
queniano que a acompanhava. Mas Justin não se convence
com a versão oficial de crime passional e logo começa
a desfiar uma escabrosa conspiração envolvendo
poderosas multinacionais e o próprio governo do qual
faz parte. Essa tomada de consciência o leva rumo a
horrores que nunca pensara presenciar em sua carreira diplomática.
O grande mérito do longa é sua sinceridade.
Felizmente, o roteiro não se afasta dos limites humanos
e resiste à tentação de transformar o
protagonista em James Bond. O personagem tem seus rompantes
de coragem, mas sempre com uma desconcertante noção
de que trava uma luta inglória. E é tal realismo
que faz de O
Jardineiro Fiel mais do que um mero filme de espionagem,
ao transformar Justin Quayle num Quixote moderno, patético
e trágico em sua desesperança. Ele sabe que
sua busca só resultará em dor e, mesmo assim,
segue adiante pelo simples fato de não ter nada a perder.
O papel de Justin Quayle cai como uma luva em Ralph Fiennes.
O ator é especialmente bom em construir tipos introspectivos
(quem o viu em Spider,
de David Cronenberg, sabe mais ou menos o que esperar). Mas,
sem minimizar a adequação de Fiennes, a presença
mais forte do filme é a luminosa Tessa de Rachel Weisz.
A atriz está incrível na seqüência
que mostra como Tessa e Justin se conheceram. Outro destaque
é Bill Nighy, num papel bem diferente do roqueiro doidão
de Simplesmente
Amor.
Certamente O
Jardineiro Fiel não é o tipo de produção
para quem quer relaxar e se sentir bem. Incomoda a naturalidade
com que os lordes do Primeiro Mundo desdenham de uma nação
carente que deveriam estar protegendo. Faz pensar em que termos
realmente se apóia a chamada "ajuda humanitária"
que os países ricos apregoam manter na África.
Talvez uma das falas mais chocantes seja a dita por um distinto
membro do primeiro escalão britânico: "nós
não matamos ninguém que não fosse morrer
de qualquer maneira". O tipo de declaração que
pode servir de slogan para qualquer atrocidade.
|
|
| |
Envie o
seu comentário sobre esta coluna.
Leia outras colunas de Érika Liporaci no Adoro Cinema. |
| |
| |
| |
|
|
 |