Ventos de revitalização vêm soprando em algumas carreiras hollywoodianas neste ano de 2006. Primeiro, foi a vez de Brian DePalma: depois de uma década realizando filmes medíocres, o mestre das referências hitchcockianas voltou à boa forma com o excelente Dália Negra. Também Martin Scorsese, diretor de pérolas como Taxi Driver e Touro Indomável, não andava em sua melhor safra há um certo tempo. Podemos dizer que seu último filme realmente excepcional foi Os Bons Companheiros. E isso tem nada menos que dezesseis anos. Embora um Scorsese fraco ainda seja um produto acima da média, os fãs andavam preocupados. Afinal, as indicações ao Oscar pelo insosso Gangues de Nova Iorque (2002) e pelo apenas mediano O Aviador (2004) foram mais um reconhecimento ao conjunto de sua obra do que à qualidade destes dois filmes.
Os Infiltrados, como o título indica, gira em torno de dois espiões. Suas funções são ironicamente parecidas, embora operem em lados opostos. Billy Costigan é um policial que, por conta de seu parentesco com membros da máfia irlandesa de Boston, é praticamente obrigado por seus superiores a trabalhar como agente infiltrado. Em contrapartida, Colin Sullivan, apadrinhado de um dos chefões da organização, é plantado na polícia com a mesma função. Os dois são igualmente eficientes e determinados, embora sintam-se massacrados pelo estresse de levar uma vida dupla. A tensão se agrava ainda mais quando a máfia e a polícia chegam à mesma conclusão: há um espião entre eles, e é preciso desmascará-lo o mais rápido possível.
A primeira coisa que chama a atenção no filme é o brilhantismo do roteiro, especialmente no que diz respeito aos diálogos. Embora tenha sido escrito baseado num filme de Hong Kong chamado "Mou Gaan Dou" (2002), cada linha parece perfeitamente adaptada ao contexto do submundo americano. Assim como ocorre com Cidade de Deus, é possível sentir a verdade por trás de cada cena. Não é preciso conviver com mafiosos para saber identificar quando uma conversa soa incrivelmente real. Nunca se viu um roteiro repleto de tiradas irônicas, piadas sujas e temperado com palavrões soar tão fascinante. Cortante, engraçado, cruel. Diabolicamente inteligente. Cada frase se converte em pura poesia marginal na boca dos atores.
Somam-se a isso as qualidades que já são marca registrada de uma produção de Martin Scorsese: trilha sonora inspirada, reconstituição de época detalhista e, sobretudo, uma maneira de filmar que faz com que cada cena em isolado tenha alto grau de relevância. Seqüências que a rigor seriam prosaicas, como a da paquera no elevador, são tão cheias de frescor que enredam o espectador nos dilemas e reações de cada personagem. Certamente grande parte desse resultado se deve à direção precisa e firme de Scorsese, que conseguiu nivelar por cima um elenco com tantas estrelas. Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Ray Winstone, Alec Baldwin. Alguns com papéis de maior destaque, outros com aparições menores. Todos ótimos. Jack Nicholson, em especial, deita e rola. Falar dele é, como dizem, chover no molhado.
O que causa mais espanto é a transformação de Leonardo DiCaprio, que despontou no começo dos anos 90 como grande promessa e logo se tornou alguém que não era levado a sério - efeito que alguns definem como "maldição Titanic". Nem quando virou o novo ator preferencial de Martin Scorsese a carreira do rapaz deslanchou. Sua atuação em Gangues de Nova Iorque foi canhestra e, apesar de ter conseguido um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por O Aviador, ainda assim parecia faltar-lhe uma certa maturidade dramática. Seu aspecto físico também contribuía para limitá-lo a papéis juvenis. Mas em Os Infiltrados algo mudou. DiCaprio finalmente cresceu e seu talento apareceu. O ator está perfeito na pele de Billy Costigan, um irlandês esquentadinho que não pensa duas vezes antes de quebrar a cara de quem atravessar seu caminho. DiCaprio machão? Por incrível que pareça, sim. Um machão malandrérrimo, que também sabe domar o temperamento violento e fazer uso da carinha bonita quando lhe convém.
Os Infiltrados é uma dupla celebração: a volta de um grande cineasta a seus melhores tempos e a conversão, ainda que tardia, de uma promessa frustrada num grande ator. Com toda certeza, um dos melhores filmes do ano. Imperdível.