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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Falsos Brilhantes 

Volta e meia aparece uma dupla de filmes de temática semelhante, feitos à mesma época. Exemplos não faltam: os westerns Tombstone e Wyatt Earp, as animações Vida de Inseto e FormiguinhaZ até mesmo dois Robin Hood que só se diferenciavam nos subtítulos - O Príncipe dos Ladrões e O Herói dos Ladrões. Agora é a vez do universo dos mágicos mostrar sua dupla face com O Grande Truque e O Ilusionista. Ambas as produções são ambientadas na Europa do século XIX e têm como protagonistas homens que levam a arte da ilusão às últimas conseqüências.

O primeiro a ganhar as telas brasileiras foi O Grande Truque, dirigido pelo criativo Christopher Nolan (de Amnésia) e tendo Hugh Jackman e Christian Bale como Robert Angier e Alfred Borden, dois mágicos que se conheceram no início de suas carreiras e, por conta de um trágico acidente, se tornaram inimigos. A acirrada rivalidade ultrapassa os limites do puro orgulho profissional e torna-se uma obsessão que os fará passar por cima de qualquer limite ético para destruir o oponente.

O filme faz uma abordagem interessante ao privilegiar a estranha relação de Angier com Borden, em que admiração e ódio se mesclam de tal maneira que um passa a viver em função do outro. Ambos se tornam tão dependentes de seus sentimentos doentios que não basta ter sucesso: é preciso que o rival fracasse. Mas, infelizmente, o filme derrapa no excesso de pegadinhas e pistas falsas. Como a própria história enuncia, os bons números de mágica são feitos em três atos. O Grande Truque despreza sua própria cartilha ao sobrecarregar a trama com reviravoltas a cada segundo - algumas bem inverossímeis, outras ridiculamente ingênuas. E o espectador acaba se sentindo iludido. No mau sentido. O longa é salvo da mediocridade pelos protagonistas: Hugh Jackman e Christian Bale são tão bons contracenando quanto o são seus personagens assombrando as platéias. Enquanto o Angier de Jackman é charmoso e carismático, o Borden de Bale é determinado e obsessivo. Quem levará a melhor?

O segundo filme sobre o tema é O Ilusionista. O personagem-título é Eisenheim, mágico que encanta as platéias de Viena com seu inigualável espetáculo. Logo sua fama irrita o príncipe-herdeiro Leopold, que se dispõe a desmascará-lo. O clima fica ainda mais tenso quando a noiva do príncipe reconhece em Eisenheim sua antiga paixão adolescente. Leopold encarrega um inspetor de polícia corrupto de descobrir os segredos do mágico para que possa destruí-lo. Porém Eisenheim tem seus próprios planos e prepara-se para executar seu maior truque.

O Ilusionista começa muito bem. O clima é de mistério e sedução, como num bom número de mágica. Eisenheim ilude as platéias tanto quanto a boa montagem das seqüências que mostram seus truques cativa o espectador. Reside aí o maior trunfo do longa: colocar o espectador no mesmo lugar do público dentro da tela. Iludido, porém encantado. Assim como o inspetor de polícia, que pode apenas pressentir que uma ilusão fora criada para ocultar a verdade. Mas a trama começa a desandar em sua meia hora final e atinge seu ponto mais fraco quando resolve explicar nos mínimos detalhes como ocorreram os fatos. Dedução a que o espectador sozinho já havia chegado. O final burocrático chega a contrariar a ideologia do filme, já que a arte da ilusão perde todo o significado quando seus truques são revelados. Seria mais honesto dar um voto de confiança para a imaginação do espectador. Para piorar, a montagem da seqüência final é um clone descarado do desfecho de Os Suspeitos. Também aqui se destacam dois atores: os sempre eficientes Edward Norton e Paul Giamatti não deixam a bola cair. Mas não se pode dizer o mesmo da inexpressiva Jessica Biel, que não convence como pivô de uma disputa entre o poderoso mágico e um príncipe.

Depois de assistir aos dois filmes, fica uma estranha sensação. Ambos poderiam ser mais bem resolvidos do que foram. Ambos têm diversas qualidades, mas que acabam ofuscadas por suas muitas deficiências. E, embora sejam interessantes em vários aspectos, nenhum dos dois vai ter alguma relevância para a posteridade.

 
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