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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Mais Uma Vez em Hogwarts 


É impossível analisar um filme da série Harry Potter como um produto puramente cinematográfico. A saga do bruxinho na telona, que se iniciou em 2001 com Harry Potter e a Pedra Filosofal e seguiu adiante com Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005) é um desses fenômenos que extrapolam os limites da sala escura. Há toda uma geração que cresceu junto com os personagens e espera ansiosamente para vê-los personificados na tela a cada nova aventura. Os longas, assim como os livros que a eles deram origem, tornam-se cada vez mais adultos e sombrios. A inocente descoberta do mundo da magia mostrada no primeiro episódio há muito ficou para trás. No caso deste quinto filme, ainda há o frisson causado pela iminente publicação do sétimo e último livro da série, Harry Potter and the Deathly Hallows, a ser lançado mundialmente no dia 21 de julho.

Neste quinto ano de Harry Potter e seus amigos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, os alunos têm que conviver com a interferência direta do Ministério da Magia dentro da escola depois que uma campanha de difamação contra Harry e, conseqüentemente, contra o próprio Dumbledore abala a credibilidade de ambos na comunidade bruxa. Cornélio Fudge, o Ministro da Magia, recusa-se a crer nas evidências do retorno de Voldemort e prefere creditar os avisos do diretor de Hogwarts a um plano mirabolante para desestabilizar seu governo. O resultado é que Dolores Umbridge, braço direito de Fudge, torna-se a nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas e parece firmemente disposta a manter os alunos na mais completa ignorância, temendo que prepará-los para os perigos do mundo real signifique dar armas a Dumbledore para iniciar uma rebelião contra o Ministério.

Podemos dizer que Harry Potter e a Ordem da Fênix é uma adaptação inteligente. Considerando a quantidade imensa de personagens secundários e subtramas que a autora J. K. Rowling acrescenta a cada volume, a grande discussão acaba sendo o que não é visto na tela ao invés do que é mostrado. Embora seja o filme com mais alterações até então, nenhuma das mudanças adultera o sentido geral da trama. É um longa redondo, com um roteiro bem construído e uma direção de arte bacana. Aliás, em questões estéticas o filme até supera seu antecessor, Harry Potter e o Cálice de Fogo.

O diretor britânico David Yates, que vem de uma carreira basicamente televisiva, mostrou ser um competente diretor de elenco. As interpretações, que foram o forte no terceiro filme e decaíram um pouco no quarto, voltam a ser afiadas neste quinto episódio. A produção foi extremamente feliz também na escolha dos atores que interpretam os novos personagens. Evanna Lynch, selecionada dentre 15 mil candidatas para personificar a exótica Luna Lovegood, é perfeita. Também Helena Bonham-Carter deixa uma forte impressão em suas poucas aparições como a vilã Bellatriz Lestrange. O público certamente ficará ansioso para vê-la com mais destaque no próximo filme, assim como a Tonks de Natalia Tena. Do elenco fixo da série, sobressaem-se, como sempre, os excelentes Alan Rickman e Maggie Smith. Já o trio central, formado por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, se cristalizou de tal forma no imaginário dos espectadores que eles simplesmente são Harry, Rony e Hermione. E é pura perda de tempo analisar se eles amadureceram como atores ou se o espectador que se afeiçoou de tal forma que não os distingue mais dos personagens.

O problema principal em A Ordem da Fênix se resume a ter que comprimir um livro de 700 páginas em duas horas e vinte de filme. A perda é necessária e inevitável, mas reconhecer tal dificuldade não impede o espectador que também é leitor da série de se frustrar. A batalha no Ministério da Magia, ponto alto do livro, acaba ficando canhestra quando vista na tela. Não que a seqüência tenha algum defeito em termos cinematográficos, mas tantos detalhes se perderam em nome da concisão necessária à adaptação que o espectador-leitor fica com uma incômoda impressão de "então é só isso?". No final das contas, o filme acaba sendo um produto mais atraente para quem não leu os livros e, portanto, desconhece a extensão do que foi deixado de fora.

Fazendo um retrospecto da série como um todo, o melhor longa ainda é Harry Potter e o Cálice de Fogo. Mas talvez Harry Potter e a Ordem da Fênix tenha se convertido num filme menos apaixonante que seu antecessor tão-somente porque a história em si é menos empolgante. O orçamento de Harry Potter e a Ordem da Fênix foi de US$ 150 milhões. Não é preciso ter poderes mágicos para saber que essa cifra estará coberta logo nesta semana de estréia. Agora resta torcer para que venha logo o sexto filme, que já se encontra em pré-produção e também será dirigido por David Yates.

 
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