Em 2002, O Chamado, inspirado no japonês Ringu, inaugurou uma verdadeira febre de filmes sobrenaturais vindos do Oriente, fossem originais ou remakes. O cúmulo do oportunismo foi O Grito, refilmagem que o diretor Takeshi Shimizu fez de seu próprio filme Ju-On, só que com atores americanos. Mas a novidade logo se mostrou desgastada, já que a maioria dos filmes dessa safra pareciam seguir um modelo idêntico. Só para citar alguns temas recorrentes, todos os mortos se mostram impiedosamente vingativos e os espíritos de menininhas sempre têm cabelos escorridos e molhados, tudo isso numa ambientação urbana e moderna. Há alguns anos chegou por essas plagas um longa tailandês que parecia, à primeira vista, mais do mesmo: Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado, dos estreantes Parkpoom Wongpoom e Banjong Pisanthanakun. Mas, embora até se utilizasse se alguns desses clichês, Espíritos não se limitava a eles porque era amparado por uma trama que fazia sentido. E costuma ser justamente essa a maior deficiência dos seus congêneres. Depois de uma passagem-relâmpago pelos cinemas, o filme se converteu em campeão de locação ao ser lançado em DVD. O que nos leva à chegada, agora com grande estardalhaço, de Espíritos 2 - Você Nunca Está Sozinho.
Para começo de conversa, cabe esclarecer que Espíritos 2 (e seu longo subtítulo) não tem absolutamente nenhuma correlação com o filme anterior, a não ser o fato de ter sido dirigido e escrito pelos mesmos Parkpoom Wongpoom e Banjong Pisanthanakun. Pim e Wee são um jovem e feliz casal tailandês que vive na Coréia. Até o dia em que a súbita hospitalização da mãe de Pim os obriga a voltar para a Tailândia. O retorno à casa dos pais faz com que Pim comece a ter estranhas sensações e visões envolvendo Ploy, sua irmã siamesa que morreu durante uma operação feita para separá-las quando elas tinham 15 anos. Pim sobreviveu e posteriormente se casou com o rapaz por quem estava apaixonada. Logo, tais visões ameaçam o equilíbrio mental da moça, estreitando o limite entre realidade e pesadelo.
Existe muita mitologia acerca das misteriosas ligações emocionais entre irmãos gêmeos. De Nelson Rodrigues a David Cronemberg, passando por inúmeras novelas, muitos já se debruçaram sobre o tema. E, no caso dos siameses, a ligação é física e biológica também - estimativas revelam que menos de 1% sobrevivem à separação. Essa questão é muito bem explorada no filme. O relacionamento entre as gêmeas a princípio parece idílico. Não por acaso, as garotinhas siamesas que tanto se amam são responsáveis pelas melhores seqüências do filme, gerando imagens de pura poesia. Só que, quando vem o conflito, tudo se torna mais grave. Como "dar um tempo" de alguém que está ligado a você?
Outro ponto positivo está na abordagem ao sobrenatural, que sempre se mantém num limite que permite interpretar de duas maneiras: aquilo está de fato acontecendo ou é causado por um desequilíbrio da protagonista? Espíritos 2 poderia ser um tremendo suspense psicológico se não tivesse se amarrado a uma certa obrigação de "dar sustos" no espectador e derrapado na tentação de rechear a boa trama com cenas de pretenso impacto. Nesses momentos, até mesmo a linda trilha sonora - cujos sons tendem para um estilo canção de ninar - fica desnecessariamente estridente. Indeciso entre simplesmente contar a história ou fazer jus ao estilo "terror", o filme acaba se enfraquecendo e descambando para o banal à medida que se aproxima do desfecho. Ainda assim, o roteiro reserva uma interessante reviravolta. Vale a pena conferir.