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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Genérico de Péssima Qualidade
Existem inúmeros motivos que fazem com que um filme
seja ruim, mas apenas um é indesculpável:
a má-fé. Afinal de contas, muitos longas medíocres
nascem com as mais nobres intenções. A biografia
de Ed Wood está aí para endossar a tese: embora
seus filmes fossem ridículos, o detentor do título
de pior cineasta do mundo os realizava com paixão.
Mas quando um estúdio torra dinheiro num filme cujo
único propósito é multiplicar o que
foi investido, não dá para dourar a pílula.
É uma falta de respeito não apenas com o espectador,
mas com a sétima arte. E essa é uma praga
que assola em especial os filmes de terror. Não bastassem
as continuações desnecessárias que
do original só levam o nome, volta e meia aparecem
arapucas como "Escuridão", produzidas tão-somente
porque há um consenso geral por parte dos executivos
de Hollywood de que o público que gosta do gênero
engole qualquer maçaroca com sustos fabricados exclusivamente
à base de música estridente e edição
frenética.
A história toda é um clone mal-ajambrado de
O
Chamado. Para que investir num argumento novo, quando
é tão fácil copiar algo que já
deu certo? Ainda assim, causa espanto tamanha cara-de-pau.
Tá bom, não tem fita de vídeo que mata
em sete dias. Mas, de resto, é tudo igualzinho: animais
com um súbito desejo suicida, com a diferença
de que são ovelhas no lugar dos cavalos; uma casa
perto do mar e de um penhasco sinistro; enquadramentos bem
semelhantes, com direito àquela árvore seca
e tudo; um abatedouro ao invés do estábulo
e, por fim, a indefectível garotinha-fantasma de
camisola comprida e cabelos escorridos que atormenta os
vivos porque foi brutalizada pelo pai. A impressão
é a de que alguém pegou o roteiro de O
Chamado, misturou com algumas páginas de Água
Negra e vendeu com um novo título. Aliás,
o título só deixa mais evidente a picaretagem:
"The Dark", no original, soa mesmo como "The Ring" com algumas
pinceladas de "Dark Water".
Maria Bello, depois de amargar anos como coadjuvante de
filmes de pequeno orçamento, não precisava
ter uma mancha dessas em sua filmografia justo quando vive
uma fase de ascensão profissional (foi indicada ao
Globo de Ouro de melhor atriz por seu papel em Marcas
da Violência). O mesmo se pode dizer do competente
Sean Bean, que vem de produções respeitáveis
como Tróia
e O
Senhor dos Anéis. Já o diretor Jonh Fawcett
tem uma carreira basicamente televisiva, tendo no currículo
algumas coisas realmente pavorosas como a série "Xena,
a Princesa Guerreira". É, ele acabou conseguindo
assustar o espectador. Mas não exatamente como pretendia.
Para piorar o que já é péssimo, "Escuridão"
ameaça terminar umas três vezes... e não
acaba. O filme tem apenas 93 minutos e, ainda assim, exaure
o espectador com sua trilha sonora óbvia e irritante,
que precede cada uma das muitas cenas que supostamente deveria
provocar sustos. Sem contar a montagem esquizofrênica,
que não tem nenhuma coerência com o ritmo da
história e só serve para cansar os olhos.
Resumindo, é um filme que não tem absolutamente
nada a acrescentar a ninguém - nem mesmo dentro da
máxima "cinema é a maior diversão".
O que mais decepciona é que algo assim consiga espaço
em nosso reduzido circuito em detrimento de inúmeras
outras produções importantes (algumas nacionais,
inclusive) que aguardam um lugar ao sol.
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