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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Quase um Bom Filme


Cameron Crowe ficou conhecido por realizar filmes que contam histórias singelas, sobre gente comum. Talvez por isso mesmo suas produções gerem tanta identificação. Diretor e roteirista, já retratou as dores da conquista em "Digam o que Quiserem" e o desencontro dos casais modernos em Singles - Vida de Solteiro. Em 2000, venceu o Oscar de roteiro original com o parcialmente autobiográfico Quase Famosos - inspirado no seu início de carreira como repórter da Rolling Stone.

Em "Elizabethtown" (que aqui ganhou o dispensável e até incorreto acréscimo "Tudo Acontece em Elizabethtown"), Crowe novamente se vale de experiências pessoais para contar uma história. Neste caso, a lembrança do que sentiu com a morte inesperada de seu pai. O protagonista é Drew, um ambicioso designer de sapatos que passa por um inferno astral: graças a um projeto seu, a companhia para a qual trabalha perderá um bilhão de dólares. E o fato de Drew ter dedicado os últimos oito anos de sua vida a tal projeto só piora as coisas. Despedido e no auge do desespero, chega a notícia de que seu pai morreu durante uma visita a parentes em outro Estado. Contra sua vontade, Drew é o escolhido para ir até Elizabethtown, cidadezinha do Kentucky, buscar o corpo e levá-lo de volta ao Oregon. Nessa viagem, além de passar a conhecer melhor as raízes de sua família, ele encontra a otimista Claire, uma comissária de bordo que parece interpretar seu jeito arredio como um desafio pessoal.

Embora tenha algumas seqüências realmente bacanas, "Elizabethtown" é cheio de altos e baixos. No geral, fica muito aquém da harmonia dos filmes anteriores de Crowe - especialmente Quase Famosos. Em sua tentativa de mesclar drama e comédia, o filme não é suficientemente engraçado na parte cômica e nem tocante a ponto de conquistar o espectador pela emoção. A seqüência de Drew com a faca e a bicicleta ergométrica é um exemplo: é inverossímil demais para causar apreensão e dramática demais para ser engraçada. Acaba sendo apenas constrangedora. O argumento lembra bastante o recente Hora de Voltar, de Zach Braff. Só que Braff, em sua estréia como diretor, conseguiu resultados bem superiores aos obtidos em "Elizabethtown".

O elenco, assim como o filme, tem rendimento irregular. O carismático Orlando Bloom talvez seja o único a atuar na medida certa. O rapaz já deixou para trás o elfo Legolas da trilogia "O Senhor dos Anéis" e se firma como grande estrela do cinema mundial. Bloom disse ter sido orientado a estudar clássicos sobre relacionamentos, principalmente Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder. Funcionou. Já Kirsten Dunst, apesar de mais expressiva do que seu habitual, não consegue se livrar daquele ar meio esnobe e afetado. O que não combina muito com sua simpática personagem. E Susan Sarandon curiosamente mantém alguns cacoetes de outras mães maluquetes que interpretou, como em A Estanha Família de Igby e Em Qualquer Outro Lugar.

Mas "Elizabethtown" também tem suas virtudes. Como em todos os filmes de Crowe, a trilha sonora é tão caprichada que chega a ser parte da trama. Grande conhecedor de música, o diretor já declarou que antes mesmo de começar a escrever um roteiro, pensa nas canções que gostaria de usar na história, anotando-as num caderno que, a certa altura, fica duas vezes maior do que o próprio roteiro.

Outro ponto alto do filme é a parte final, que faz uma espécie de passeio musical e cultural pelo interior dos Estados Unidos. Embora as circunstâncias que norteiem o trajeto de Drew beirem o nonsense, o resultado geral é bem interessante - além de apresentar um modo original de declarar amor a alguém. Nessa meia hora final é possível reconhecer o estilo intimista de Cameron Crowe na tela. É quando o personagem se mostra por inteiro, de peito aberto, e o espectador finalmente consegue se identificar com aquele homem perdido, que tem que se conformar em dialogar com as cinzas do pai porque nunca houve espaço para essa conversa de corpo presente. Belas seqüências, embaladas por som de primeira. É uma pena que durante sua desnecessariamente longa duração (125 minutos), vejamos somente lampejos do grande filme que "Elizabethtown" poderia ser.
 
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