Admirável Cinema Alemão Novo
O poder anda mudando de mãos na Europa. Pelo menos,
em termos de sétima arte. Enquanto cinematografias
tradicionalíssimas como a italiana e a francesa parecem
não ter muito de novo a mostrar, a Alemanha se firma,
ao lado da Espanha, como o grande celeiro de novidades dos
últimos anos. É verdade que os alemães
revolucionaram o cinema dos anos 20 com o até hoje
copiado expressionismo alemão, mas suas produções
andavam apagadinhas desde então. As coisas começaram
a mudar em 1998, quando Tom Tykwer causou furor com seu vigoroso
Corra,
Lola, Corra. Em 2003 o país faturou o Oscar de
filme estrangeiro com o poético
Lugar
Nenhum na África. Infelizmente, foi injustiçado
no ano passado ao não ter o delicioso
Adeus,
Lenin! selecionado para a categoria. Um novo espécime
dessa onda germânica de bom cinema a aportar por aqui
é
Edukators.
Os protagonistas são Jan e Peter, jovens idealistas
que se autodenominam "Os Educadores" e têm um modo inusitado
de protestar contra o sistema: invadem mansões, trocam
móveis e objetos de lugar e deixam mensagens enigmáticas
como "seus dias de riqueza estão acabando" ou "você
tem dinheiro demais". Jan acaba contando o segredo a Jule,
namorada de Peter, que insiste para que invadam a casa de
um empresário que a processou. Jan concorda e tudo
seria uma grande curtição, se Jule não
esquecesse seu celular na casa. Eles voltam para buscar o
telefone, são surpreendidos e a brincadeira acaba se
tornando um seqüestro. Como se não bastasse estarem
envolvidos num crime grave, ainda têm que lidar com
a desconfiança de Peter ao descobrir a súbita
cumplicidade entre a namorada e seu melhor amigo.
O filme equilibra com muita eficácia os dramas particulares
dos personagens com discussões filosóficas e
sociais mais genéricas. Essa mistura de elementos que
vai do triângulo amoroso ao engajamento político
nem sempre tem um resultado final satisfatório. Um
exemplo recente é o pretensioso
Os
Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Mas tudo que soa artificial
no filme do renomado diretor italiano parece muito verdadeiro
em
Edukators.
Talvez porque os personagens pareçam humanos de fato
e não projeções idealizadas para seduzir
o público. Também pode-se sentir a pegada naturalista
e despojada do austríaco Hans Weingartner. O jovem
diretor de 34 anos veio ao último Festival do Rio apresentar
este seu quinto filme e parecia realmente surpreso - e um
tanto emocionado - com a reação entusiástica
do público ao longa. E essa evidente falta de pretensão
de Weingartner se reflete de uma maneira muito positiva na
telona.
Contudo,
Edukators
seria apenas um filme simpático e bem-feito se não
fosse sua espetacular seqüência final. Quando tudo
parece se encaminhar para um desfecho certinho demais, uma
virada surpreendente, amparada por uma montagem impecável,
dá toda uma nova dimensão ao longa. Irretocável.