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No Escurinho do Set
Poucos
diretores têm uma marca própria tão inconfundível
quanto Woody Allen. Por conta disso as reações
a seu trabalho costumam ser dramáticas: algumas pessoas
o amam e veneram; outras simplesmente o odeiam. Mas o curioso
a respeito disso é que mesmo alguns de seus mais fiéis
admiradores vêm demonstrando uma certa má vontade
com o cineasta. Os intelectuais de plantão parecem
não perdoá-lo por ter abandonado a fase contemplativa,
que inclui produções como Simplesmente
Alice e Neblina e Sombras. Mas é
preciso lembrar que Allen começou sua carreira fazendo
comédias amalucadas, como O Dorminhoco.
Então porque essa exigência em querer mantê-lo
prisioneiro de uma fase específica? Se a matéria-prima
de Woody Allen é o ser humano com suas contradições,
é natural que sua filmografia siga seu humor. Tudo
indica que Allen vive uma fase feliz em sua vida. E Dirigindo
no Escuro é, sobretudo, um filme bem-humorado.
A trama
gira em torno de Val Waxman, cineasta que já foi considerado
gênio e encontra-se em total decadência. Por conta
de sua personalidade difícil, seus trabalhos se limitam
a comerciais de segunda categoria para a TV. Sua última
chance aparece quando a ex-esposa, com remorsos de o ter trocado
por um chefão de estúdio, convence o namorado
a lhe oferecer a direção de um filme que estão
produzindo. Waxman sofre uma crise de estresse tão
profunda que, às vésperas de iniciar as filmagens,
fica repentinamente cego. O médico diz que é
psicológico, mas não tem como prever o tempo
de cura. O agente de Val o convence a prosseguir como se nada
tivesse acontecido. Woody Allen declarou em recente entrevista
que a inspiração para o argumento veio de uma
sensação que costuma ter ao ver seus filmes
depois de prontos, a de que "estava cego" ao filmar
aquilo.
Mais uma
vez, Allen tem a si mesmo como protagonista. E apesar de não
deixar de ser uma forma de narcisismo, seu alter ego não
é apresentado de uma forma lá muito elogiosa.
Afinal de contas, Val Waxman é neurótico, hipocondríaco
e megalômano, entre outras coisas. Na verdade, a história
de Dirigindo no Escuro não é
o mais importante. É apenas uma justificativa para
vermos o cineasta dirigindo seu humor corrosivo contra a sociedade
americana, a indústria cinematográfica e até
mesmo contra si próprio. Simplesmente genial a cena
em que ele se encontra com a ex-mulher e junta, no mesmo diálogo,
questões comerciais e reclamações afetivas.
Diálogos que são, como sempre, brilhantes e
carregados da acidez que só o humor judaico sabe produzir.
Coisa que o público médio americano tem certa
dificuldade em digerir. Talvez isso explique aquela velha
história de Woody Allen ser mais estimado fora de seu
país do que dentro dele. Aliás, esta questão
também é explorada com maestria no filme.
Outro grande
destaque está na cena em que Waxman começa a
mudar suas concepções para se adequar às
exigências do estúdio, que não abre mão
de um filme com apelo comercial. Estaria aí uma alfinetada
no atual "patrão" Steven Spielberg? Ou seria
só uma gozação com aqueles que o acusam
de estar ficando comercial depois do acordo com a DreamWorks
de Spielberg & cia? Porque, para falar a verdade, eu não
consigo considerar "vendido" um cara que trabalha
para um grande estúdio e consegue fazer um filme ridicularizando
todo o sistema que o sustenta. Essa é a grande piada
com que Allen está nos brindando. Ah, e finalmente
a velha tradição brasileira de "inventar"
títulos completamente diferentes do original produziu
algo interessante: o título em português é
realmente um achado.
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