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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

No Escurinho do Set


Poucos diretores têm uma marca própria tão inconfundível quanto Woody Allen. Por conta disso as reações a seu trabalho costumam ser dramáticas: algumas pessoas o amam e veneram; outras simplesmente o odeiam. Mas o curioso a respeito disso é que mesmo alguns de seus mais fiéis admiradores vêm demonstrando uma certa má vontade com o cineasta. Os intelectuais de plantão parecem não perdoá-lo por ter abandonado a fase contemplativa, que inclui produções como Simplesmente Alice e Neblina e Sombras. Mas é preciso lembrar que Allen começou sua carreira fazendo comédias amalucadas, como O Dorminhoco. Então porque essa exigência em querer mantê-lo prisioneiro de uma fase específica? Se a matéria-prima de Woody Allen é o ser humano com suas contradições, é natural que sua filmografia siga seu humor. Tudo indica que Allen vive uma fase feliz em sua vida. E Dirigindo no Escuro é, sobretudo, um filme bem-humorado.

A trama gira em torno de Val Waxman, cineasta que já foi considerado gênio e encontra-se em total decadência. Por conta de sua personalidade difícil, seus trabalhos se limitam a comerciais de segunda categoria para a TV. Sua última chance aparece quando a ex-esposa, com remorsos de o ter trocado por um chefão de estúdio, convence o namorado a lhe oferecer a direção de um filme que estão produzindo. Waxman sofre uma crise de estresse tão profunda que, às vésperas de iniciar as filmagens, fica repentinamente cego. O médico diz que é psicológico, mas não tem como prever o tempo de cura. O agente de Val o convence a prosseguir como se nada tivesse acontecido. Woody Allen declarou em recente entrevista que a inspiração para o argumento veio de uma sensação que costuma ter ao ver seus filmes depois de prontos, a de que "estava cego" ao filmar aquilo.

Mais uma vez, Allen tem a si mesmo como protagonista. E apesar de não deixar de ser uma forma de narcisismo, seu alter ego não é apresentado de uma forma lá muito elogiosa. Afinal de contas, Val Waxman é neurótico, hipocondríaco e megalômano, entre outras coisas. Na verdade, a história de Dirigindo no Escuro não é o mais importante. É apenas uma justificativa para vermos o cineasta dirigindo seu humor corrosivo contra a sociedade americana, a indústria cinematográfica e até mesmo contra si próprio. Simplesmente genial a cena em que ele se encontra com a ex-mulher e junta, no mesmo diálogo, questões comerciais e reclamações afetivas. Diálogos que são, como sempre, brilhantes e carregados da acidez que só o humor judaico sabe produzir. Coisa que o público médio americano tem certa dificuldade em digerir. Talvez isso explique aquela velha história de Woody Allen ser mais estimado fora de seu país do que dentro dele. Aliás, esta questão também é explorada com maestria no filme.

Outro grande destaque está na cena em que Waxman começa a mudar suas concepções para se adequar às exigências do estúdio, que não abre mão de um filme com apelo comercial. Estaria aí uma alfinetada no atual "patrão" Steven Spielberg? Ou seria só uma gozação com aqueles que o acusam de estar ficando comercial depois do acordo com a DreamWorks de Spielberg & cia? Porque, para falar a verdade, eu não consigo considerar "vendido" um cara que trabalha para um grande estúdio e consegue fazer um filme ridicularizando todo o sistema que o sustenta. Essa é a grande piada com que Allen está nos brindando. Ah, e finalmente a velha tradição brasileira de "inventar" títulos completamente diferentes do original produziu algo interessante: o título em português é realmente um achado.
 
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