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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Rio 40 Graus

Copacabana, cartão postal célebre no mundo inteiro. Em nenhum outro bairro da Cidade Maravilhosa os contrastes são tão agudos, gerando uma fauna que nem Fellini ousaria imaginar. Velhinhos, prostitutas, travestis, meninos de rua, meninas do interior, glamour, perdição. Tudo lado a lado. Ninguém sabe quem é quem e todos podem ser o que quiserem. Só num cenário assim é possível uma virgenzinha do interior se transformar em prostituta profissional num piscar de olhos. Esse é apenas um dos muitos acontecimentos que se atropelam no caótico cenário de O Diabo a Quatro. Depois da homenagem romântica a Botafogo no recente Bendito Fruto, é a vez da princesinha do mar ser retratada num filme. O longa também marca a estréia na direção de longa-metragens de Alice Andrade, filha de Joaquim Pedro de Andrade.

Não há exatamente um protagonista, embora o foco central esteja em quatro personagens: Rita, a menina do interior que vira prostituta; Paulo Roberto, o surfista vagabundo com meio neurônio; Tim Mais, o cafetão metido machão que, no fundo, é um sentimental; e Waldick, o garoto que sonha ser como um famoso apresentador de TV. Além desses quatro cavaleiros do apocalipse noturno, estão presentes outras figurinhas fáceis como o policial corrupto, o pequeno traficante, a mãe que deixa o bebê nas mãos da babá, o político que só pensa na campanha, sua mulher frustrada sexualmente, a empregada viciada em programas de auditório, enfim, todo um painel de arquétipos da zona sul, cujas histórias se confundem e entrelaçam na selva urbana do bairro.

Por trás desse argumento aparentemente simples, podemos ver que trata-se de um filme que não faz muita questão de deixar tudo explicadinho em seus mínimos detalhes. Um exemplo é quando a patroa de Rita viaja e retorna antes do previsto. Por quê? Num primeiro momento, causa estranheza. Mas logo em seguida vem a noção de que, na verdade, isso não faz muita diferença. Outro exemplo é a ambientação da trama. A história se passa durante o famoso "verão da lata", aquele em que o navio panamenho Solana Star inundou o litoral do Rio com latas de maconha. E essa é a única menção temporal. Quem não se lembrar ou não souber que foi um acontecimento real, não vai nem notar que o filme se passa em 1987. Talvez até estranhe a ausência de tiroteios entre quadrilhas rivais.

A diretora Alice Andrade - também uma das responsáveis pelo roteiro - optou por uma narrativa fragmentada, em que muitas peças permanecem soltas boa parte do filme. Embora algumas vezes deixe o espectador confuso, o filme nunca chega a perder o fio da meada. Toda vez que a narrativa parece se dispersar, logo a história entra em seus eixos novamente. Apostar alto na perspicácia do espectador é uma decisão corajosa, ainda mais num filme de estréia. Já o elenco foi escolhido a dedo, com destaque para a inspirada performance de Márcio Libar. Todos, sem exceção, têm o biotipo perfeito para seus papéis, o que é meio caminho andado para um bom resultado final. Vale ressaltar, ainda, a grande sacação do título.

O Diabo a Quatro ganhou dois prêmios no Festival de Brasília de 2004: o Prêmio Especial do Júri e o de melhor ator coadjuvante para o sempre ótimo Jonathan Haagensen. Esse é o tipo de filme que tem que ser visto até a última cena para, só então, se formar uma opinião a respeito. Cheio de diversidade, repleto de partes contrastantes e angulosas. Alguns trechos são mais excitantes do que outros. Mas a média geral é bastante positiva. Como Copacabana. Creio que isso não é mera coincidência.

 
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