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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

O Desempate de Shyamalan 

Em 1999, um indiano de vinte e poucos anos escreveu, produziu e dirigiu um dos melhores filmes da década. O filme era O Sexto Sentido e o jovem M. Night Shyamalan chegou a ser comparado a Hitchcock. Exageros à parte, realmente parecia surgir um novo expoente do cinema contemporâneo. Cabe ressaltar que O Sexto Sentido não é o primeiro filme de Shyamalan: ele realizou anteriormente os obscuros Praying with Anger (1992) e Wide Awake (1998). Mas a partir de O Sexto Sentido, indicado a seis Oscars, foi gerada uma imensa expectativa sobre seus trabalhos futuros. Logo no ano seguinte, a resposta veio em forma de decepção com o banal Corpo Fechado. Dois anos depois, foi lançado o péssimo Sinais. Mas em 2004, quando os críticos já o tachavam de "cineasta de um filme só", Shyamalan lançou A Vila, uma interessante investigação sobre as origens do medo na sociedade. Então o placar ficou dois a dois? É preciso um quinto filme para promover o desempate.

O roteiro de A Dama na Água teve como ponto de partida uma história criada por M. Night Shyamalan para ninar seus filhos. Não deixa de ser louvável a ousadia e criatividade do diretor em tentar criar um conto de fadas. Pena que, como a maioria das histórias inventadas para colocar os pequenos para dormir, muita coisa não faça sentido. Não se trata de exigir verossimilhança total de um conto de fadas, mas há algo de bizarro numa história que tem como mola mestra uma ninfa saída de uma piscina de condomínio. A moça, que tem o sugestivo nome de Story (história), deve encontrar um escritor e, tal como uma musa grega, inspirá-lo para que seu talento deslanche e ele crie uma obra que será importante em tempos futuros. Só então ela estará livre para voltar a seu mundo, onde reinará como uma espécie de "escolhida" de profecia bíblica. Cleveland Heep, o triste e solitário zelador do condomínio, é quem descobre Story e passa a protegê-la de criaturas malignas que desejam matá-la para impedir seu retorno.

Existem vários aspectos interessantes no longa, mas o problema é que as boas partes não chegam a criar um todo consistente. O roteiro revela suas maiores qualidades quando é claramente cômico. As ironias envolvendo o crítico de cinema sabe-tudo são, desde já, antológicas. O enredo também evolui bem quando se emaranha nas relações interpessoais. O grande nó está justamente nos momentos que deveriam elucidar o porquê do surgimento de Story naquele lugar. A decisão de contar a lenda para o espectador através da vizinha oriental é apenas uma dentre várias soluções infelizes. Nestes trechos, o espectador fica sem saber como reagir. Aparentemente está diante de algo sério, mas o resultado final é risível. Tropeços causados pela fragilidade da trama, que, no esforço de criar uma mitologia original, acaba aglutinando muitos detalhes que não convencem. Digamos que tudo acaba ficando "enfeitado" demais. E vamos combinar que o monstrengo que persegue Story é tosco até dizer chega - quase tão ridículo quanto o alienígena de Sinais.

Embora esteja longe de ser um filme perfeito, A Dama na Água é salvo por seu elenco. Aliás, Shyamalan deveria agradecer de joelhos a Paul Giamatti - um dos melhores atores da atualidade - por ter protagonizado seu filme. Nos últimos anos, Giamatti vem merecidamente saindo do time dos coadjuvantes para conquistar papéis de peso em produções como Anti-Herói Americano e Sideways. Sua atuação em A Dama na Água é genial. Seu personagem é um homem aparentemente indiferente à vida, assombrado por seus próprios fantasmas, mas com uma generosidade tão irreversível que não hesita em se arriscar pela etérea ninfa. E o ator consegue emocionar até mesmo nas falas mais banais, passando longe da pieguice e do exagero. Já Bryce Dallas Howard confirma o talento mostrado em A Vila, caracterizando Story com um misto de encanto e inocência que a torna hipnótica. O próprio Shyamalan, conhecido pela insistência em fazer pontas nos seus filmes (outro modo de ser associado a Hitchcock?), desta vez reserva para si um papel de considerável importância. Se não chega a ser uma grande interpretação, também não atrapalha.

A conclusão? Assim como há uma certa dificuldade em separar as cenas cômicas propositais das involuntárias, não há condições de bater o martelo sobre este filme. A Dama na Água certamente tem inúmeras qualidades, mas entremeadas por falhas gigantescas. Ainda não vai ser dessa vez que se chegará a uma conclusão sobre o porte do talento de M. Night Shyamalan. O jogo segue empatado.

 
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