Filme novo de Beto Brant no circuito é sempre um acontecimento que gera as mais altas expectativas. Cultuado desde seu primeiro longa, o surpreendente "Os Matadores", o cineasta paulista continuou demonstrando fôlego com o pouco visto Ação entre Amigos. Mas foi em 2001 que entrou de vez para o primeiro time, com o espetacular O Invasor. Agora Brant volta às telas com Crime Delicado, adaptação da obra homônima de Sérgio Sant'Anna.
O protagonista é Antônio Martins, um crítico teatral temido e solitário, que vive para sua carreira. Seus artigos são cuidadosamente elaborados, marcados pela objetividade e análise racional da arte. Arredio e cínico, tem sempre uma observação mordaz na ponta da língua. A simetria de sua vida é bagunçada quando conhece Inês, uma jovem atraente e ousada que não se deixa limitar pela deficiência física. Pelo contrário: trabalha como modelo para as criações eróticas de um pintor com quem vive uma relação que Antônio não consegue definir e, muito menos, entender. Violentamente apaixonado, Antônio sente-se corroído pela insegurança e a cada dia mais desnorteado neste mundo real e cheio de riscos que até então lhe era desconhecido.
Crime Delicado surpreende pela coragem de tocar em alguns temas considerados tabus, como a nudez e sensualidade da moça deficiente e até mesmo as circunstâncias do crime que dá título ao filme. Também é interessante o modo como a narrativa induz ao erro, iniciando a história pela perspectiva do protagonista - que, a despeito de ser um grande intelectual, é um total despreparado quando se trata de viver. Em determinado momento, ele mesmo declara: "sempre vivi na terceira pessoa". A criativa inserção de alguns trechos de encenações teatrais, além de apresentar o cotidiano do personagem, ajuda a entender como se estabelece tão rápido em sua mente uma atmosfera de ciúme e obsessão. Afinal de contas, Antônio vê o mundo através do filtro da arte que consome religiosamente. Há que destacar, ainda, o talento do sempre competente Marco Ricca, em mais uma interpretação na medida certa.
Não se pode negar que o filme possui várias qualidades, mas o resultado final está um pouco aquém da filmografia de Beto Brant. Após um começo hipnótico, a trama se dilui na segunda metade. Indeciso entre continuar a dissecar as distorções da personalidade do protagonista ou dar uma guinada para o drama criminal, o longa acaba não fazendo nem uma coisa nem outra e caminha para um desfecho meio frouxo. Nada contra finais abertos, existem vários desfechos abertos perfeitos - o de Flores Partidas é ótimo, só para ficar num exemplo recente -, mas no caso de Crime Delicado fica um certo vazio no ar quando os créditos finais enchem a telona. Impressão reforçada pela curta duração do filme, deixando o espectador frustrado com a impossibilidade de se aprofundar numa história que poderia render desdobramentos interessantíssimos.