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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Efeitos Colaterais

Tom Cruise sempre fez jus a ser conhecido como o "homem do sorriso de 20 milhões de dólares". Afinal de contas, é ponto pacífico que o sorriso radiante do moço tem poder de fogo suficiente para lotar salas de cinemas mundo afora. E é justamente essa a pedra no sapato do astro: ser mais famoso pela ortodontia do que pela dramaticidade. Incômodo que só deve ter crescido quando a ex, Nicole Kidman, ganhou um Oscar no ano passado. Mas o curioso é que, mesmo quando tentava ser reconhecido como "ator sério", Cruise continuava empenhado em seduzir a platéia. Ou seja: continuava sendo Tom Cruise. Considerando esse histórico, é realmente um choque quando vemos o ator grisalho e sisudo em Colateral. Melhor ainda quando percebemos que os acertos vão além do visual: a construção do personagem Vincent é de um refinamento só. Ponto a favor do diretor Michael Mann, que realizou o que nem um mito como Stanley Kubrick pôde: extrair uma grande interpretação de Tom Cruise.

A história tem um quê de Taxi Driver, especialmente ao mostrar a solidão do motorista Max. Ele está na profissão há 12 anos e conhece as ruas de Los Angeles como ninguém, embora sempre afirme que aquilo é temporário. Numa noite como outra qualquer, o elegante e educado Vincent entra em seu taxi e eles acertam uma quantia para que Max o leve a vários lugares naquela noite. Max não tarda a descobrir que está à mercê de um assassino de aluguel, que deve em poucas horas matar cinco testemunhas que deporiam no dia seguinte contra um cartel do narcotráfico.

A partir deste ponto, a relação tensa entre Max e Vincent remete a outro grande filme, O Silêncio dos Inocentes. Assim como Clarice Starling e Hannibal Lecter, o ponto de tangência entre Max e Vincent é que ambos são profissionais competentes no que fazem e determinados a cumprir com o que consideram sua obrigação. E, assim como Starling e Lecter, há um abismo moral entre eles que os coloca em posições antagônicas. O que não impede que sintam uma admiração velada por seu oponente, posição que fica evidente quando Max incorpora um certo savoir-faire adquirido de Vincent para se safar de uma saia justa daquelas. O clima noir, realçado pela visão noturna de uma Los Angeles sinistra, combina perfeitamente com os diálogos carregados de ironia e cinismo. Me empolguei, parecia que um belo filme se desenrolava diante dos meus olhos.

Mas é na meia hora final que a coisa começa a desandar. Michael Mann é um diretor irregular. Fez coisas boas como "O Último dos Moicanos" e O Informante (pelo qual recebeu sua única indicação ao Oscar de melhor diretor) e outras não tão boas como Ali e Fogo contra Fogo. Aliás, a comparação entre Colateral e O Silêncio dos Inocentes não é totalmente por acaso. Michael Mann dirigiu em 1986 a primeira versão de "Dragão Vermelho" (filme que narra eventos anteriores aos de "O Silêncio"), inferior à refilmagem de 2002 de Brett Ratner. Mas, nesse caso, quem fez a diferença foi Anthony Hopkins.
No caso de Colateral, fica a expectativa frustrada de um filme que poderia render muito mais. Era só evitar o manjado joguinho de gato-e-rato em que se transformou a parte final do longa. Desnecessário, preguiçoso e apelativo. Sem contar a paquerinha sem sal entre Max e a promotora Annie (Jada Pinkett Smith, mais conhecida como sra. Will Smith). Tudo isso acaba ofuscando a excelente parte inicial, já que o que fica na cabeça do espectador é sempre o desfecho. É claro que as coisas poderiam ter sido piores, considerando que o ator escalado para interpretar Max originalmente era o bobão Adam Sandler. Dá pra imaginar no que o filme ia se transformar. Noves fora, é difícil evitar o desapontamento com o resultado. Mas fica a satisfação de ver um Tom Cruise menos bonito e mais interessante.
 
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