A proximidade de uma Copa do Mundo é o que basta para acirrar ainda mais a já tradicional implicância entre brasileiros e argentinos. Normal. Mas, felizmente, essa competitividade com nossos vizinhos portenhos não impede que seus excelentes filmes cheguem a nossas telonas em doses cada vez mais generosas.
O cinema made in Argentina consolidou seu prestígio por aqui na virada do milênio, quando filmes como o ousado Plata Quemada e o espertíssimo Nove Rainhas (ambos de 2000) conquistaram crítica e público. Nove Rainhas, longa de estréia do diretor Fabián Bielinsky, foi um estrondoso sucesso internacional. Tanto que ganhou um remake americano em 2004, o fraquinho "Criminal" - batizado em português de 171. Em 2001, O Filho da Noiva, indicado ao Oscar de filme estrangeiro, apresentou-nos ao belíssimo trabalho de Juan José Campanella. O estilo poético e bem-humorado do cineasta lembra o cinema italiano contemporâneo de mestres como Giuseppe Tornatore. O filme anterior de Campanella, o romântico O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, embora nunca tenha passado nos cinemas, costuma ser figurinha fácil na rede Telecine.
Desde então, o trânsito dos longas argentinos só tem se intensificado. Basta ver num trailer os olhos verdes do ator Ricardo Darín - presença cativa nos filmes de Campanella - para identificar a iminente chegada de mais um filme argentino. E diretores até então pouco conhecidos, como Lucrecia Martel, de A Menina Santa, e Fernando Solanas, dos documentários "Memórias do Saqueio e "A Dignidade dos Ninguéns", já são nomes que atraem público. Aliás, histórias politizadas e de cunho social são uma constante. Em 2004, O Abraço Partido, de Daniel Burman, saiu do Festival de Berlim com o Grande Prêmio do Júri e o Urso de Prata de melhor ator. Na trama, o maior desejo de Ariel, jovem de origem israelense, é obter um passaporte europeu para fugir de sua vida sem perspectivas e da mãe superprotetora. Nada muito diferente dos anseios de jovens brasileiros que vêem Miami como seu eldorado.
Dentro desse panorama dos últimos anos, é uma satisfação - mas não exatamente uma surpresa - o excedente de ótimas produções argentinas que invadiram nossas telas neste ano. O pontapé inicial veio em março, com a estréia do último filme de Juan José Campanella: Clube da Lua. Filmado em 2004, o longa tece um paralelo entre o clube do título e a crise pela qual vem passando o país. O decadente clube Luna de Avellaneda, outrora um marco da boa vida em Buenos Aires, está para fechar suas portas após meio século de tradição. Alguns sócios se reúnem para encontrar uma saída para evitar a falência, ao mesmo tempo em que se debatem com seus próprios problemas. Através desse nostálgico mergulho num passado de glórias, os personagens acabam por reinventar suas próprias trajetórias e resgatam a dignidade perdida com a crise financeira. Impressiona sobretudo o fôlego do filme que, mesmo tendo sido lançado com publicidade zero, ainda se encontra em cartaz.
À mesma época, estreou o simpático e pouco visto "Não é Você, Sou Eu", que envereda pelos caminhos do coração com uma receita de comédia romântica temperada com pitadas de dilemas existenciais para Woody Allen nenhum botar defeito. O filme tem ainda como mérito a presença do carismático Diego Peretti como o sujeito não consegue reconstruir a vida após o desmoronamento da relação. Há algumas semanas, o mesmo Peretti ressurgiu como protagonista do divertidíssimo Tempo de Valentes. Numa linha completamente diferente, essa alucinada mistura de comédia e filme de ação enfoca um psicanalista atrapalhado que, por conta de um acidente de trânsito, é condenado a prestar seus serviços de uma forma inusitada: acompanhar na viatura um policial que acaba de ser abandonado pela esposa e está à beira de um ataque dos nervos.
Herencia, da estreante Paula Hernández, talvez seja o caso mais curioso: levou nada menos que cinco anos para chegar aqui. A trama narra com delicadeza a amizade entre uma italiana de meia-idade e um jovem alemão em Buenos Aires. Olinda chegou à Argentina logo após a 2ª Guerra Mundial, em busca de seu grande amor e decidiu ficar no país. Agora é dona de um modesto restaurante. Peter, décadas depois, também veio a Buenos Aires em busca de uma paixão perdida. Quando Peter passa por dificuldades, Olinda lhe oferece trabalho e hospedagem. A convivência com o jovem faz com que ela relembre seu próprio passado e repense suas escolhas.
E não pára por aí: novos filmes argentinos estão estreando todas as semanas. Hoje mesmo, enquanto concluía essa matéria, "Roma" ganhou a sala escura. E mais dois exemplares estão sendo mostrados em trailers: "Buena Vida Delivery" e "O Buda". A julgar pela safra recente, que a migração portenha para a terra brasilis seja infinita.