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por Érika Liporaci

Faroeste Caboclo: "Cidade de Deus" Volta aos Cinemas

Cidade de Deus já causou polêmica antes mesmo de sua estréia: a concorrida première no Rio de Janeiro, em 2002, foi palco da prisão de um traficante há muito procurado. Muito se especulou a respeito do episódio. Comentou-se, ainda, que o filme seria mais visto por conta disso. Polêmicas à parte, Cidade de Deus (ou CDD) já é impactante o suficiente. Na época em que chegou aos cinemas, dividiu opiniões. Muitas pessoas se sentiram incomodadas com o tom naturalista com que a trama se desenrola. Falou-se em exploração da miséria, espetacularização da violência e mais um punhado de bobagens pseudo-sociológicas. Mas talvez a má-vontade com que o filme de Meirelles foi recebido no meio intelectual se deva a fatores externos ao que se vê na tela. Provavelmente o que mais incomodou essa gente foi o fato deste ex-publicitário paulista ter colocado nas telas com tamanha competência um filme que vira pelo avesso todas as ultrapassadas concepções do politicamente correto na arte.

Mas nada como um dia depois do outro. O filme representou o Brasil na disputa por uma vaga na categoria melhor filme estrangeiro do Oscar 2003 e foi solenemente esnobado pelo geriátrico comitê que classifica os concorrentes deste segmento. Parecia que a carreira de CDD no exterior estava acabada. O próprio Fernando Meirelles jogou a toalha. Mas Harvey Weinstein, presidente da Miramax (distribuidora internacional do filme), se apaixonou pelo longa e resolveu brigar por sua consagração, colocando-o no circuito de arte e mantendo-o em cartaz apesar da modesta bilheteria. Vale lembrar que a categoria melhor filme estrangeiro é um segmento à parte e qualquer país pode indicar um filme. Já nas principais, é pré-requisito que a produção tenha estado um certo tempo em cartaz nos Estados Unidos durante o ano anterior. Essa regra, associada à não-classificação para filme estrangeiro, tornou CDD elegível para as categorias principais. Mas nem mesmo Weinstein poderia sonhar que o filme receberia quatro indicações: fotografia, montagem, roteiro adaptado e direção - uma das mais cobiçadas, colocando o brasileiro em pé de igualdade com Peter Jackson, Sofia Coppola, Clint Eastwood e Peter Weir.

Baseado no livro de Paulo Lins, Cidade de Deus narra a vida na favela de mesmo nome, desde sua fundação (nos anos 60) até a década de 80, quando a guerra sangrenta entre os traficantes Cenoura e Zé Pequeno dividiu a região em duas facções rivais. Um embrião da situação em que atualmente se encontra praticamente todo o Rio de Janeiro. A escalada da violência fica bem clara no filme, que retrata como os primeiros delinqüentes eram inofensivos, se comparados com os posteriores. Evidencia, ainda, o fato de que os garotos entram na criminalidade cada vez mais cedo. O que vemos na tela é uma realidade feia e muito próxima de nós. Diferente de assistir passivamente a um faroeste, com índios e caubóis lutando pelo árido oeste americano. E o filme perturba justamente porque não se propõe a apontar soluções mirabolantes. Apenas narra, com a imparcialidade de um documentário, as histórias e motivos entrelaçados dos diferentes personagens: Bené, o bandido boa-praça; Mané Galinha, o cara honesto corrompido pelo crime; Buscapé, o pacifista por excelência; e o implacável Zé Pequeno, que, aparentemente, não precisou de um motivo para ser mau.

O elenco que, com exceção do ator Matheus Nachtergaele e do músico Seu Jorge, é formado por garotos selecionados em comunidades carentes do Rio, foi fundamental para a sensação de realismo que permeia o filme. Dentre tantos talentos, destaca-se a performance repleta de som e fúria de Leandro Firmino da Hora como Zé Pequeno, dos irmãos Phellipe e Jonathan Haagensen (Bené e Cabeleira) e dos garotos Douglas Silva e Darlan Cunha, hoje celebridades por conta de seus personagens Laranjinha e Acerola na série televisiva "Cidade dos Homens". A co-diretora Katia Lund, responsável pela preparação dos atores, soube extrair aproveitamento máximo de cada um.

O festejado roteiro de Bráulio Mantovani é outra peça fundamental para o êxito do filme: é abrangente, ágil e lida bem com a grande quantidade de personagens, sem deixar pontas soltas. Além disso, sabe inserir um certo humor na história sem escorregar no caricato, ou banalizar a tensão e violência da trama. Tudo isso, aliado à montagem esperta de Daniel Rezende e sob a batuta competente de Fernando Meirelles, faz de CDD um filme imprescindível.

Cidade de Deus foi bem recebido no Festival de Cannes 2003 e indicado ao Globo de Ouro do ano passado (perdeu para o rolo compressor Fale com Ela, de Pedro Almodóvar). No Oscar, quem tem maior chance de trazer a estatueta para casa é o jovem Daniel Rezende por conta de sua preciosa montagem. O filme já foi premiado com o BAFTA da Academia Britânica nesta mesma categoria. Os vencedores do Oscar 2004 serão conhecidos no dia 29 de fevereiro. Independente do resultado, já serviu para o filme ser devidamente reconhecido aqui em sua terra de origem.
 
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