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Faroeste
Caboclo: "Cidade de Deus" Volta aos Cinemas
Cidade
de Deus já causou polêmica antes mesmo
de sua estréia: a concorrida première no Rio
de Janeiro, em 2002, foi palco da prisão de um traficante
há muito procurado. Muito se especulou a respeito do
episódio. Comentou-se, ainda, que o filme seria mais
visto por conta disso. Polêmicas à parte, Cidade
de Deus (ou CDD) já é impactante o
suficiente. Na época em que chegou aos cinemas, dividiu
opiniões. Muitas pessoas se sentiram incomodadas com
o tom naturalista com que a trama se desenrola. Falou-se em
exploração da miséria, espetacularização
da violência e mais um punhado de bobagens pseudo-sociológicas.
Mas talvez a má-vontade com que o filme de Meirelles
foi recebido no meio intelectual se deva a fatores externos
ao que se vê na tela. Provavelmente o que mais incomodou
essa gente foi o fato deste ex-publicitário paulista
ter colocado nas telas com tamanha competência um filme
que vira pelo avesso todas as ultrapassadas concepções
do politicamente correto na arte.
Mas nada
como um dia depois do outro. O filme representou o Brasil
na disputa por uma vaga na categoria melhor filme estrangeiro
do Oscar 2003 e foi solenemente esnobado pelo geriátrico
comitê que classifica os concorrentes deste segmento.
Parecia que a carreira de CDD no exterior estava acabada.
O próprio Fernando Meirelles jogou a toalha. Mas Harvey
Weinstein, presidente da Miramax (distribuidora internacional
do filme), se apaixonou pelo longa e resolveu brigar por sua
consagração, colocando-o no circuito de arte
e mantendo-o em cartaz apesar da modesta bilheteria. Vale
lembrar que a categoria melhor filme estrangeiro é
um segmento à parte e qualquer país pode indicar
um filme. Já nas principais, é pré-requisito
que a produção tenha estado um certo tempo em
cartaz nos Estados Unidos durante o ano anterior. Essa regra,
associada à não-classificação
para filme estrangeiro, tornou CDD elegível para as
categorias principais. Mas nem mesmo Weinstein poderia sonhar
que o filme receberia quatro indicações: fotografia,
montagem, roteiro adaptado e direção - uma das
mais cobiçadas, colocando o brasileiro em pé
de igualdade com Peter Jackson, Sofia Coppola, Clint Eastwood
e Peter Weir.
Baseado
no livro de Paulo Lins, Cidade de Deus narra
a vida na favela de mesmo nome, desde sua fundação
(nos anos 60) até a década de 80, quando a guerra
sangrenta entre os traficantes Cenoura e Zé Pequeno
dividiu a região em duas facções rivais.
Um embrião da situação em que atualmente
se encontra praticamente todo o Rio de Janeiro. A escalada
da violência fica bem clara no filme, que retrata como
os primeiros delinqüentes eram inofensivos, se comparados
com os posteriores. Evidencia, ainda, o fato de que os garotos
entram na criminalidade cada vez mais cedo. O que vemos na
tela é uma realidade feia e muito próxima de
nós. Diferente de assistir passivamente a um faroeste,
com índios e caubóis lutando pelo árido
oeste americano. E o filme perturba justamente porque não
se propõe a apontar soluções mirabolantes.
Apenas narra, com a imparcialidade de um documentário,
as histórias e motivos entrelaçados dos diferentes
personagens: Bené, o bandido boa-praça; Mané
Galinha, o cara honesto corrompido pelo crime; Buscapé,
o pacifista por excelência; e o implacável Zé
Pequeno, que, aparentemente, não precisou de um motivo
para ser mau.
O elenco
que, com exceção do ator Matheus Nachtergaele
e do músico Seu Jorge, é formado por garotos
selecionados em comunidades carentes do Rio, foi fundamental
para a sensação de realismo que permeia o filme.
Dentre tantos talentos, destaca-se a performance repleta de
som e fúria de Leandro Firmino da Hora como Zé
Pequeno, dos irmãos Phellipe e Jonathan Haagensen (Bené
e Cabeleira) e dos garotos Douglas Silva e Darlan Cunha, hoje
celebridades por conta de seus personagens Laranjinha e Acerola
na série televisiva "Cidade dos Homens".
A co-diretora Katia Lund, responsável pela preparação
dos atores, soube extrair aproveitamento máximo de
cada um.
O festejado
roteiro de Bráulio Mantovani é outra peça
fundamental para o êxito do filme: é abrangente,
ágil e lida bem com a grande quantidade de personagens,
sem deixar pontas soltas. Além disso, sabe inserir
um certo humor na história sem escorregar no caricato,
ou banalizar a tensão e violência da trama. Tudo
isso, aliado à montagem esperta de Daniel Rezende e
sob a batuta competente de Fernando Meirelles, faz de CDD
um filme imprescindível.
Cidade
de Deus foi bem recebido no Festival de Cannes 2003
e indicado ao Globo de Ouro do ano passado (perdeu para o
rolo compressor Fale com Ela, de Pedro Almodóvar).
No Oscar, quem tem maior chance de trazer a estatueta para
casa é o jovem Daniel Rezende por conta de sua preciosa
montagem. O filme já foi premiado com o BAFTA da Academia
Britânica nesta mesma categoria. Os vencedores do Oscar
2004 serão conhecidos no dia 29 de fevereiro. Independente
do resultado, já serviu para o filme ser devidamente
reconhecido aqui em sua terra de origem.
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