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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Abre-te Sésamo

O gênero terror abarca os mais diferentes tipos de produção: são assim classificadas histórias de vampiros, lobisomens, monstros espaciais, fantasmas, assassinos em série... e por aí vai. Até mesmo suspenses psicológicos como Água Negra e aventuras como A Múmia são jogados na vala comum do terror. Não vai aqui nenhum preconceito contra os filmes de terror e sim uma dificuldade em subdividir tão vasto contigente. Com o tempo, criou-se uma espécie de código. Espera-se, por exemplo, que produções envolvendo psicopatas tenham montagem de videoclipe, elenco jovem, trilha sonora pop e diálogos engraçadinhos. Já histórias de vampiros costumam ser à moda antiga, com um ritmo mais lento, efeitos artesanais, fotografia escura, névoa, sombras.

A Chave Mestra aparentemente propõe-se a enfocar outra popular vertente do gênero: a casa mal-assombrada. E o título só reforça esse equívoco, fazendo crer que a tal chave mestra é fundamental para a história. Nem tanto assim. E esse é o grande problema do filme: ele não se resolve muito bem em termos de proposta. A casa enorme e cheia de cômodos inativos lembra muito Os Outros. Já a atmosfera sufocante, detalhando as maneiras antiquadas dos sulistas, tem algo de Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, embora o argumento seja bastante semelhante ao de Coração Satânico. Bom, se A Chave Mestra tem elementos que remetem a esses três ótimos exemplos... é um bom filme? Não exatamente. Justamente porque dá a impressão de ser uma colcha de retalhos de situações que o espectador já viu em outras (e melhores) produções. E essa falta de personalidade torna tudo pesado e cansativo. Também não ajuda lembrar que o último filme do diretor Iain Softley a passar por aqui foi a papagaiada K-Pax (aquele em que Kevin Spacey é um extraterrestre que parece estar cheio de ópio nas idéias).

A protagonista de A Chave Mestra é Caroline Ellis, estudante de enfermagem especializada em tomar conta de idosos. Seu novo emprego é como acompanhante de Ben Devereaux, mudo e paralisado após um derrame sofrido em circunstâncias suspeitas. Ben e sua esposa Violet vivem numa decadente mansão em meio a uma região pantanosa na periferia de Nova Orleans. A casa é cheia de quartos trancados e, para que Caroline possa desempenhar suas funções, Violet lhe entrega uma chave mestra. Caroline encontra um cômodo escondido atrás de uma estante no sótão e, lá dentro, artefatos usados em magia negra.

Há que ressaltar que o desfecho é interessante, preenchendo as lacunas do que parecia estar mal-explicado. O problema é que, até chegar a esta boa conclusão, o filme se arrasta, correndo o risco do espectador mais impaciente abandonar a sala de projeção antes. Fica evidente desde o princípio quem são os vilões, mas não suas motivações. Só que as pistas falsas não deixam o espectador intrigado; pelo contrário, a impressão é a de que o roteiro foi escrito de forma primária. Em nome de manter o mistério até o fim, o longa se perde em uma hora e meia de todo tipo de clichê: portas batendo, quinquilharias no sótão, uma interminável perseguição por dentro da casa e, é claro, o vilão duro de matar. Sem contar a indefectível cena apavorante que se revela um pesadelo da personagem. A trilha sonora é óbvia até dizer chega, quase dá pra ver o filme de olhos fechados. Imperdoável também é a forçada correlação que o roteiro tenta fazer entre Ben e o pai de Caroline.

A estrela do filme é Kate Hudson, que chegou a um ponto preocupante em sua carreira. A bela e talentosa filha de Goldie Hawn não emplaca um filme de categoria desde que ficou famosa em 2000 como a tiete de bandas de rock Penny Lane no ótimo Quase Famosos. Desde então sua filmografia tem sido inexpressiva, incluindo fiascos como As Quatro Plumas e Alex & Emma. Ou seja: a moça precisa trocar de agente o mais rápido possível. Completam e abrilhantam o elenco os veteranos Gena Rowlands e John Hurt - se existe algo de memorável no filme, é a atuação dele -, além do auxílio luxuoso do carismático Peter Sarsgaard.

Apesar dos tropeços do roteiro e da direção preguiçosa, toda a parte visual é muito boa. Nova Orleans é perfeita para histórias que enfocam o mundo sobrenatural e a magia negra. O histórico conservador e escravagista do sul dos Estados Unidos só reforça essa aura de mistério em torno de uma parte do país onde os conflitos supostamente são trancados a sete chaves. Não por acaso, os já citados Os Outros, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal e Coração Satânico também são ambientados em cidades sulistas.

Resumindo: não é que A Chave Mestra seja perda de tempo total. Mas sai mais barato e proveitoso alugar um bom filme de terror na locadora.

 
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