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Toque de
Novo, Sam
Casablanca faz 60 anos e, assim como
um bom vinho, está cada vez melhor
Afinal,
que magia tem Casablanca? O filme, rodado
em 1943, continua apaixonando cinéfilos de todas as
idades há seis décadas. Alguns atribuem tamanha
longevidade ao carisma dos astros Humphrey Bogart e Ingrid
Bergman. Outros, ao inesquecível tema "As Time
Goes By", capaz de provocar imediata nostalgia e evocar
amores perdidos em qualquer um. Ou seria a equilibrada mistura
de romance e drama político que tanto nos encanta?
Não importa. Casablanca é daqueles
clássicos eternos que sempre terão destaque
em qualquer lista que se faça. Não é
à toa que foi o campeão do levantamento da AFI
- American Film Institute - dos 100 maiores filmes de amor.
Até mesmo o sarcástico Woody Allen se rendeu
ao charme do filme em seu projeto conjunto com Herbert Ross,
Sonhos de um Sedutor, onde recebia conselhos
do fantasma de Bogart. Bryan Singer foi outro a homenagear
o clássico, batizando seu longa de estréia de
"The Usual Suspects" (em português, apenas
Os Suspeitos) em referência a uma famosa
frase do filme, quando o inspetor de polícia diz "arrest
the usual suspects" (prendam os suspeitos habituais).
A verdade é que diferentes gerações já
se renderam a essa excepcional história que conjuga
amor, drama, ironia, patriotismo, suspense, mas sobretudo
magia... muita magia! Parada obrigatória para qualquer
um que se julgue amante da sétima arte.
A trama
quase todo mundo já conhece: durante a Segunda Guerra,
Casablanca, no Marrocos, torna-se o principal entreposto na
rota de fuga de toda a Europa. Em Casablanca é possível
embarcar para Lisboa e, de lá, num navio para a América.
O problema é que muitas pessoas vagam anos pela cidade
atrás de um visto. O cínico americano Rick,
que "não arrisca seu pescoço por ninguém",
dirige o bar mais famoso e bem frequentado da cidade. Sua
famosa imparcialidade é ameaçada com a chegada
de Ilsa, seu grande e único amor que o abandonou no
passado. Ela chega em companhia de Victor Laszlo, herói
da resistência. Eles precisam de vistos para fugir.
Rick pode ajudar mas, obviamente, reluta em fazê-lo.
Na famosa seqüência que entrou para a história
como "a cena do aeroporto", um corajoso Rick convence
uma chorosa Ilsa a partir em companhia de Laszlo que, a essa
altura, já se sabe ser o marido dela.
Muitas
gerações debateram a pergunta que não
quer calar: por que Rick deixou Ilsa partir, assim perdendo
a mulher que amava pela segunda vez? Alguns engraçadinhos
argumentam que "só em filme alguém deixaria
Ingrid Bergman ir embora". Outros sugerem indícios
de homossexualidade entre Rick e o chefe de polícia,
por conta da última fala do filme ("Louie, acho
esse é o início de uma bela amizade").
Brincadeiras à parte, todo cinéfilo parece ter
uma teoria para o desenlace de Casablanca.
Na minha
opinião, Rick sente-se tão envergonhado e diminuto
diante de seu rival que não tem coragem de tirar-lhe
a esposa. E talvez essa seja a grande ousadia de Casablanca,
no final das contas: o herói do filme não é
Rick e sim, Victor Laszlo. Não vamos confundir herói
com protagonista. Rick é cínico, amargurado
e, em certa medida, tornou-se um covarde após sua desilusão
amorosa. Sem contar que ele trata as mulheres como lixo, castigando
tolamente o mundo pelo mal que ele acha que Ilsa lhe causou.
Já Laszlo é a personificação da
integridade: corajoso, inteligente e, como se não bastasse,
profundamente apaixonado pela esposa. Inesquecível
a bela cena em que ele se levanta e, desafiando os abusados
oficiais nazistas, insufla os freqüentadores do bar a
cantarem a Marselhesa (hino francês) com ele.
Rick, no
fundo de seu coração, compreende que se Ilsa
ficar com ele um dia virá a comparação.
E que ele não é páreo para um herói.
Preocupação que ele deixa transparecer no final,
quando diz à amada que ela se arrependeria "talvez
não hoje, nem amanhã, mas logo e pelo resto
de sua vida". Compreender este fato acaba sendo a salvação
de Rick, que finalmente toma consciência de que o mundo
vai além de seu próprio umbigo.
Embora
seja sem dúvida um belo filme de amor, Casablanca
fala, acima de tudo, de redenção. De um homem
e uma mulher que enfrentam seus fantasmas e têm coragem
de seguir em frente. De fazer o que é preciso. O encontro
com Ilsa "salva" Rick e retira-o de sua confortável
e tediosa condição de espectador da vida. Ele
acorda. Se envolve, se compromete. Enfim, volta a ser uma
peça no tabuleiro.
Casablanca
ganhou três Oscars: filme, roteiro adaptado e direção.
Também tornou célebre a frase "Play it
again, Sam" (Toque de novo, Sam) que, na verdade, nunca
foi dita no filme. O mais perto que há disso é
a cena em que Ingrid Bergman pede, sedutora: "Play, Sam.
Play As time Goes By" (Toque, Sam. Toque As Time Goes
By). E ele toca a música. Quem ousaria decepcionar
Ingrid e milhões de espectadores?
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