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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

A Arte Imitando a Vida 

Nelson Pereira dos Santos acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, o que o torna o primeiro cineasta a ocupar uma cadeira na instituição fundada por Machado de Assis. Em 1955, Nelson inaugurou o Cinema Novo com o transgressor "Rio 40 Graus". Posteriormente, foi responsável por sucessos como "Vidas Secas", "Boca de Ouro" e "Memórias do Cárcere". Ainda que tenha lançado há três anos o documentário Raízes do Brasil, o diretor não realizava uma obra de ficção há mais de uma década - o último foi o metalingüístico "Cinema de Lágrimas", em 1995. E eis que o agora imortal cineasta faz seu retorno com uma produção ambientada nos bastidores do poder da malfadada Capital Federal. Tudo isso faz com que os olhos dos cinéfilos brasileiros se voltem com avidez para o lançamento de Brasília 18%.

O roteiro do filme foi escrito originalmente nos anos 90, mas sofreu uma atualização para se adequar ao panorama atual. Em certos momentos, com tantas referências a CPI's, mesadas e congêneres, a impressão é a de estarmos assistindo ao noticiário. Aliás, considerar o filme como obra de ficção é uma mera formalidade. Diante da sensação de realidade que permeia o longa, a declaração que antecede os créditos finais - "Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência" - soa como uma grande ironia. Provocador, Nelson recorre ao farsesco e batiza seus personagens com nomes de figuras históricas como Gonçalves Dias, Gregório de Mattos e Rui Barbosa. Até mesmo a mítica Marília de Dirceu vira uma prostituta adolescente. Também é difícil não reparar na semelhança física entre o vilão Sílvio Romero, interpretado por Carlos Vereza, e um certo político maranhense.

Olavo Bilac (o sumido Carlos Alberto Riccelli, em ótima interpretação) é um famoso legista que trabalha em Los Angeles e vem ao Brasil para dar seu parecer num caso polêmico de identificação de cadáver. O corpo pertenceria a Eugênia Câmara, jovem desaparecida há meses que testemunhou um escândalo financeiro envolvendo notórios políticos. Seu namorado, o cineasta Augusto dos Anjos, foi preso e é de interesse geral que prevaleça a versão de crime passional, já que Augusto é testemunha de uma CPI. Mas os exames não são conclusivos e tudo depende da decisão de Bilac, que é cercado de abutres logo que chega a Brasília. Atordoado, pressionado e ainda sofrendo pela perda recente de sua esposa Laura, Olavo Bilac tenta chegar à verdade sobre o caso. Mas logo Laura e Eugênia se misturam em sua mente e ele começa a confundir realidade e imaginação.

Um ponto interessante a destacar é a passividade do protagonista, que em seu alheamento e perplexidade se deixa carregar por forças opostas. Completamente perdido entre os tubarões do poder, Olavo acaba por se refugiar em suas lembranças pessoais. O que torna muito difícil prever qual será sua decisão: ceder à pressão ou arriscar tudo em nome da integridade moral?

O título Brasília 18%, além de se referir à baixa taxa de umidade que torna a cidade seca e sufocante, também é uma menção ao número de filmes de ficção dirigidos por Nelson Pereira dos Santos. Guarda, ainda, correlação com uma de suas mais célebres obras, "Rio 40 Graus". Além da atualidade do tema, é um filme dirigido com segurança e criatividade. O que prova que Nelson Pereira dos Santos, aos 78 anos, permanece com seu vigor artístico intacto.

 
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