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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Cara-de-Pau Pouca é Bobagem 


Com o hilário subtítulo "o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América", chega às telas brasileiras Borat, a comédia que vem causando frisson mundo afora. O personagem-título, Borat Sagdiyev, foi criado em 2000 pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen para o programa televisivo Da Ali G Show. Nesta incursão na tela grande, Borat deixa o Cazaquistão e viaja aos States - ou "US of A", como ele diz - para fazer um documentário. Chegando em Nova Iorque, ele se encanta ao ver Pamela Anderson na TV e decide ir a Los Angeles pedi-la em casamento.

Em sua acidentada passagem por diversas cidades, o comportamento politicamente incorreto, grosseiro e, sobretudo, anti-semita de Borat entra em choque com as pessoas e gera reações que deixam evidente quem são os verdadeiros preconceituosos. Borat se insere em situações potencialmente reais e muitas vezes os interlocutores respondem às questões estapafúrdias do personagem com uma seriedade absurda, como é o caso do balconista da loja de armas que lhe indica o melhor calibre para matar judeus ou o vendedor de carros usados que calcula a quantos quilômetros por hora seria conveniente atropelar um grupo de ciganos para que eles morram.

Com um humor por vezes apelativo, a grande sacada do filme é justamente essa interação com o cidadão americano. O confronto entre a anarquia e desprezo pelas convenções de Borat e o conservadorismo e ignorância de pessoas das mais diversas faixas sociais deixa como saldo um assustador retrato do americano médio. Embora num primeiro momento pareça um filme de mau gosto, um olhar mais atento revela que, ao ser excessivamente preconceituoso, o longa só destaca o racismo e xenofobia do povo americano. Um exemplo disso é a artilharia pesada que o filme reserva aos judeus. Aliás, certamente a comunidade judia não deixaria que tais absurdos fossem disparados impunemente não fosse o próprio Cohen judeu. Basta lembrar a mobilização contra Mel Gibson e sua A Paixão de Cristo.

O filme obteve duas indicações ao Globo de Ouro: melhor filme e melhor ator em comédia ou musical, vencendo nessa última categoria. Sacha Baron Cohen, que concorre ao Oscar de melhor roteiro adaptado, recusou o convite da Academia para ser um dos apresentadores da cerimônia do próximo domingo. Mas as polêmicas começaram muito antes, ainda na fase de produção. A polícia foi chamada quase cem vezes durante as filmagens do longa e, em Nova Iorque, um mandato de prisão chegou a ser emitido para o ator. Em Washington, ele foi interpelado pelo Serviço Secreto e continuou no personagem durante o interrogatório ao qual foi submetido. Mesmo porque Cohen - que, além de Borat, criou vários personagens para a TV - é conhecido por raramente se mostrar em público como ele mesmo. Já o governo do Cazaquistão considerou sua caracterização "incompatível com a ética e o comportamento da população do país" e chegou ao cúmulo de bancar um desmentido de quatro páginas no New York Times.

Claro que tanto barulho foi extremamente benéfico para a bilheteria do filme, que atualmente detém o recorde de maior estréia para um filme lançado em menos de mil salas (o campeão anterior era Fahrenheit 11 de Setembro, do também explosivo Michael Moore). Com um orçamento de apenas US$ 18 milhões, Borat se pagou já em seu primeiro final de semana, ao arrecadar US$ 26,4 milhões.

Deixando as discussões éticas de lado, Borat é um filme bastante engraçado. É preciso parabenizar a inacreditável cara-de-pau de Sacha Baron Cohen, que não tem o mínimo pudor em se expor ao ridículo em inúmeras situações que vão do mero constrangimento à mais virulenta escatologia. Destaque para sua aparição na fila de autógrafos de Pamela Anderson e para a impagável seqüência em que ele inadvertidamente se hospeda com um casal de judeus. É de chorar de rir.

 
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