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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

A Ferro e Fogo, em Carne Viva 


Em São Paulo, no final dos anos 60, um grupo de frades dominicanos passa a apoiar a luta contra a ditadura. Movidos por seus ideais pacifistas, os freis Betto, Fernando, Ivo e Tito logo se tornam visados pela polícia por conta de seus contatos com o guerrilheiro Carlos Marighella, líder da ALN (Ação Libertadora Nacional). Uma vez presos, Tito é o que sofre as mais terríveis humilhações e torturas. Algum tempo depois, contra sua vontade, ele é mandado para o exílio juntamente com outros presos negociados em troca do embaixador suíço Giovani Bucher. Mas seu calvário não termina com a libertação, já que mesmo longe do Brasil Tito tem pesadelos constantes com seus carrascos. No auge do desespero e desorientação, comete suicídio. Essa é a trama central de Batismo de Sangue, produção baseada no livro de memórias homônimo de Frei Betto.

O livro, que já se encontra na 18ª edição, ganhou o Prêmio Jabuti em 1985. Mas os roteiristas também realizaram uma detalhada pesquisa nos arquivos da Ordem dos Dominicanos do Brasil, em jornais da época e até nos arquivos do DOPS e da USP, além de consultar outras obras relacionadas, ainda que indiretamente, ao tema. Finalmente, o material foi complementado com depoimentos recentes dos freis Fernando, Ivo e Betto.

Frei Tito de Alencar Lima tornou-se um símbolo de resistência e luta pelos Direitos Humanos quando seu impressionante relato dos porões da ditadura foi contrabandeado para fora da cadeia e posteriormente publicado na revista Look. Há muitos anos que o cineasta Helvécio Ratton - diretor de Menino Maluquinho (1995) e do premiado Uma Onda no Ar (2002) - tem interesse em contar essa história: "Esta tragédia sempre me impressionou. Como um jovem de apenas 28 anos de idade pôde ser tão afetado pela violência a ponto de não conseguir recompor a própria vida mesmo depois de se ver livre de seus algozes (...) Quando Tito está na cela, naquele cômodo estreito e escuro, não pude deixar de pensar na minha própria passagem pelo DOPS", comentou o cineasta.

A desconstrução por que passa frei Tito é tão comovente justamente por ser ele um personagem tão otimista e sensível. Há uma ingenuidade romântica em sua obstinação em defender os oprimidos que contrasta de modo brutal com o rapaz arrasado psicologicamente após três dias de tortura ininterrupta. O resultado é que vemos diante de nós a destruição não apenas de um ideal mas também de um ser humano. O filme impressiona pela crueza das cenas de tortura, embora a selvageria das imagens nunca seja gratuita e sim uma necessidade de ilustrar o terror que aquelas pessoas vivenciaram.

O elenco é muito bem escolhido, com destaque especial para Caio Blat como Tito e Cássio Gabus Mendes como Fleury. Blat, sempre relegado a segundo plano na grande mídia, apresenta mais uma atuação impecável. Vale ressaltar que o ator tem sido escalado para alguns papéis semelhantes em seus últimos filmes e o que mais impressiona nele é justamente sua capacidade de interpretar personagens parecidos de modo totalmente diverso. Sua composição de Tito é sensível e delicada, o que só torna mais chocante sua descida ao inferno. Já a performance de Gabus Mendes parece anunciar uma mudança de rumo em sua carreira. Sempre estereotipado como bom moço, o ator se transforma radicalmente para personificar a verdadeira encarnação do mal. A caracterização também ajudou, chegando ao detalhe de usar chumaços de algodão na boca para aumentar a papada e alterar a articulação, desse modo aproximando-o ainda mais do verdadeiro Fleury. Caio Blat lembra que, apesar do acompanhamento psicológico, seus ensaios com Cássio eram sempre delicados, pois, após um certo tempo, chegou a sentir medo real do colega. Também não se pode deixar de destacar o carisma de Léo Quintão e Odilon Esteves (freis Fernando e Ivo, respectivamente), estreantes na sétima arte. Um belo batismo para ambos.

Batismo de Sangue joga luz sobre mais um vergonhoso capítulo da história recente do país. Assim como ocorre em outras produções recentes, como Zuzu Angel, o longa evidencia o grau de histeria a que chegou a mão pesada do totalitarismo e faz parte de um rol de filmes que deveriam ser vistos hoje e sempre para lembrar aos desavisados que ninguém nem nada está imune à barbárie quando se vive num regime de terror. A reação desproporcional que sofriam os dissidentes, mesmo os que praticavam uma resistência pacífica como foi o caso dos dominicanos, é simplesmente grotesca. E o temível delegado Fleury não foi um caso isolado. Pelo contrário, não passa de um símbolo dos requintes de sadismo a que chegavam os agentes da repressão - abomináveis executores a serviço de uma sociedade que absolvia e legitimava suas ações.
 
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