O cineasta Kevin Smith é uma figuraça, disso ninguém duvida. Nerd confesso, louco pelo universo pop, dono de um humor bastante peculiar. Em 1994, ainda um desconhecido, vendeu toda sua extensa e inestimável coleção de revistas em quadrinhos para fazer O Balconista. Depois que o filme se tornou um inesperado sucesso - ganhou um prêmio em Cannes e outro em Sundance -, comprou toda a coleção de volta. Uma década e cinco filmes depois, Smith resolveu realizar uma seqüência do seu primeiro sucesso.
Os fãs de O Balconista ficaram de pé atrás, pois não sabiam bem o que esperar desta seqüência. Ainda mais porque já fazia um certo tempo que Kevin Smith não dava mostras do estilo que o consagrou - seu último foi filme foi o irreconhecível Menina dos Olhos. Mas, felizmente, Clerks 2 (no original) representa um retorno às origens e não fica nada a dever a seu antecessor. O que equivale a dizer que é um filme muito, muito engraçado. Anárquico, politicamente incorreto e levemente escatológico - ou seja, o típico filme de Smith. Os diálogos são afiados e cheios de referências à cultura pop, incluindo uma divertidíssima comparação entre as trilogias Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis. O que, no final das contas, é um modo bastante divertido de exemplificar o batido tema do choque de gerações.
Dante Hicks e Randal Graves, os protagonistas de O Balconista, agora têm trinta e poucos anos e ainda trabalham na mesma loja de conveniência mostrada no filme anterior, a Quick Stop. Quando o lugar é destruído num incêndio, os dois vão parar numa lanchonete estilo McDonald's - aliás, a lanchonete Mooby's já foi mostrada em O Império do Besteirol Contra-Ataca -, onde são chefiados pela competente Becky e entram em conflito com Elias, que representa uma nova geração de nerd que choca a dupla porque supostamente não teria nada em comum com o tipo de jovem que Randal e Dante eram há dez anos. Sem contar que Dante parece finalmente ter encontrado o caminho para a maturidade: está prestes a se casar e migrar para a Flórida, onde trabalhará com o sogro.
Mas os novos conflitos não são o que realmente importa na história. O que as pessoas querem ver, na verdade, é todo o resto, que continua igual: os debates acalorados sobre banalidades, as piadas hereges e os ataques machistas de Randal. Sem esquecer, é claro, dos vagabundos Jay e Silent Bob (interpretado pelo próprio Smith), personagens secundários presentes em todos os filmes do diretor que ficaram famosos a ponto de ganhar um filme só pra eles, o já citado O Império do Besteirol Contra-Ataca.
Resumindo, trata-se de um filme para entendidos. Podemos até dizer que é um longa com pré-requisitos, já que quem nunca viu um filme de Kevin Smith certamente não vai achar a mínima graça neste. A história é totalmente referencial aos trabalhos anteriores do diretor/ator e não perde tempo explicando quem são os personagens, o que seria fatal para o neófito. Com isso, ficam duas perguntas para o espectador em potencial: o caro leitor conhece o trabalho de Kevin Smith? Gosta? Se a resposta for afirmativa nos dois casos, é o caso de correr ao cinema mais próximo para relembrar o já conhecido humor escrachado e selvagem. O Balconista 2 foi exibido fora de competição no Festival de Cannes do ano passado e é altamente recomendado para os que apreciam animais. Vejam e entenderão e piadinha.