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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Tão Perto e Tão Longe 

Babel: n. 1. Na Bíblia, uma famosa torre construída por uma humanidade unida para chegar ao céu, causando com que Deus, em sua fúria, fizesse com que cada pessoa envolvida falasse uma língua diferente, pondo um fim ao projeto e dispersando um povo confuso e desunido pelo planeta.

Foi inspirado nessa definição clássica do símbolo bíblico da prepotência humana que o cultuado cineasta Alejandro González Iñárritu concebeu seu mais novo trabalho. Em comum com seus filmes anteriores (Amores Brutos e 21 Gramas), Babel tem a estrutura de roteiro em mosaico - história paralelas com pontos de interseção - e a questão de todas as tramas terem sido desencadeadas por um fato corriqueiro. Nos filmes anteriores foi um acidente de carro que conectou os personagens. Em Babel, o contato entre as quatro histórias é ainda mais tênue.

Mais do que uma metafóra sobre as dificuldades de relacionamento entre a espécie humana, o filme enfoca um estranho paradoxo do século XXI: a despeito de vivermos na era da comunicação e ser cada vez mais simples se comunicar com qualquer pessoa em qualquer lugar, o ser humano está a cada dia mais isolado. Celulares, computadores, toda uma tecnologia de ponta que serve mais para afastar do que aproximar. E, nesse sentido, podemos estender o conceito da Torre de Babel para conflitos atualíssimos. Porque os grandes desentendimentos da humanidade vão além da questão meramente linguística: está na psiquê do ser humano não compreender. Equívocos, mal-entendidos e falhas de comunicação são uma constante nas relações, mesmo quando as pessoas falam a mesma língua.

Quatro países, quatro idiomas, três continentes, o mesmo isolamento. Em meio a uma paisagem desértica, um tiro de rifle é o estopim para uma cadeia de eventos que se estenderá dos Estados Unidos ao Japão, passando pelo México. No Marrocos, os americanos Richard e Susan tentam salvar o casamento em crise. Como se o simples distanciamento geográfico deixasse em casa todas as mágoas. Perto dali, a rivalidade infantil entre dois irmãos os leva a se envolver num trágico acidente. Em San Diego, a babá Amelia precisa ir ao casamento do filho em Tijuana e toma a infeliz decisão de atravessar a fronteira levando consigo os filhos pequenos do patrão. Em Tóquio, Chieko, adolescente surda-muda, tenta compensar o preconceito e preencher o vazio que a incomunicabilidade lhe causa com uma sexualidade explícita. Mas tudo que consegue é agredir a si mesma.

Mesmo repetindo alguns temas também presentes em Amores Brutos e 21 Gramas - como o acaso que une pessoas -, Babel tem uma visão menos visceral dos acontecimentos. Há uma espécie de distanciamento, quase um voyerismo que anestesia os sentidos do espectador. E não me parece que tal resultado tenha sido acidental; pelo contrário, fica evidente que o efeito letárgico foi uma decisão deliberada de Iñárritu, como se todos nós fôssemos observadores das dores alheias, numa nova e macabra forma de reality show. Em contrapartida, tal estrutura faz com que o espectador não se envolva tão profundamente com as tramas. Se nos longas anteriores sofríamos com as tragédias que se abatiam sobre os personagens, em Babel é possível manter uma certa frieza clínica.

O segmento japonês é, sem sombra de dúvida, o mais rico emocionalmente. Este belo conto sobre solidão é o trecho mais passível de envolver o espectador. E grande parte do encanto se deve ao carisma de Rinko Kikuchi como Chieko. Iñárritu, a princípio, buscava uma atriz com problemas de audição, mas a jovem estava tão determinada a conseguir o papel que começou a ter aulas da linguagem de sinais antes mesmo de ser aprovada. Tendo como contraponto o astro japonês Kôji Yakusho no papel de seu pai, a dupla encarna, de longe, a mais comovente vertente dessa multifacetada história.

Babel concorreu a sete Globos de Ouro: melhor filme/drama, diretor, ator coadjuvante (Brad Pitt), atriz coadjuvante (Adriana Barraza e Rinko Kikuchi), roteiro e trilha sonora. Depois de perder em todas as categorias, saiu da festa levando o último e mais cobiçado prêmio - o de melhor filme -, desbancando o franco-favorito Os Infiltrados.

 
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