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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Um Homem, Uma Mulher... Nove Anos Depois

Desde seu lançamento, em 1995, o filme Antes do Amanhecer vem conquistando românticos mundo afora. Uma longevidade surpreendente para uma produção tão despretensiosa. Mas talvez esse seja o segredo do sucesso do longa, que narra o encontro do americano Jesse com a francesa Cèline num trem. Ambos seguirão caminhos diferentes ao amanhecer, e decidem saltar em Viena e passar as horas restantes juntos. Romance, humor e até filosofia permeiam o papo dos estranhos cada vez menos estranhos, com a linda Viena a emoldurar a cena. No dia seguinte, no último instante, Cèline pede a Jesse que a encontre naquele mesmo lugar dentro de exatamente seis meses.

E essa ficou sendo a grande dúvida dos fãs do filme: eles se reencontraram? Pergunta que ficou respondida no instante em que se divulgou a produção do filme Antes do Pôr-do-Sol, efusivamente anunciado como o reencontro de Jesse e Cèline... nove anos depois. Daí surgiram novas questões: Eles se desencontraram? Alguém furou o encontro? Quem? Por que?

Nesta seqüência, Jesse se tornou um escritor e seu livro narra o romance dele com Cèline. Durante a turnê de lançamento, a última parada é justamente em Paris. Um repórter pergunta a ele o que teria acontecido com seus personagens, numa deliciosa brincadeira com a curiosidade dos fãs do filme anterior. Jesse se esquiva, e responde que "isso vai depender se você é um cínico ou um romântico". O que talvez seja um recado do diretor Richard Linklater para a platéia e um prenúncio de que ele não pretende responder a todas as questões. Pelo menos, não preto no branco. É então que, aos 48 do segundo tempo, Cèline aparece no lançamento, diante de um estupefato Jesse prestes a embarcar num avião de volta. Ele a convida para um café e, como no encontro anterior, o tempo corre contra eles. Como recuperar nove anos em pouco mais de uma hora?

O grande encanto do filme é a extrema sensação de realidade. Talvez um dos motivos de tudo soar tão verdadeiro seja o fato do roteiro ter sido escrito por Richard Linklater em conjunto com os atores Ethan Hawke e Julie Delpy - os mesmos de Antes do Amanhecer. Além disso, a produção foi de fato realizada nove anos após a primeira. Essa passagem de tempo se traduz não apenas no rosto dos atores, mas também num amadurecimento de seus personagens. Eles estão diferentes: menos românticos e inocentes, deixando claro que cresceram as responsabilidades sobre seus ombros. Por outro lado, é bom constatar que os reveses da vida não os tornaram pessoas desagradáveis. Cèline, por exemplo, é um tantinho neurótica, mas sempre com muita doçura e suavidade. E ter personagens tão humanos na tela cria uma incrível identidade com o público, que também amadureceu na mesma proporção e pode entender exatamente o que se passa com eles. Reside aí o que talvez seja o único senão do filme: Antes do Pôr-do-Sol joga todas as fichas para seduzir seu público cativo e pode, portanto, não ser tão atraente para quem não viu seu antecessor.

O filme é rodado quase em tempo real, acompanhando a conversa do casal durante um curto passeio pelas ruas de Paris. Embora seja uma espécie de ajuste de contas, o que mais emociona é o que fica nas entrelinhas. E isso é um grande mérito de Ethan Hawke e Julie Delpy, que transmitem o quanto um foi - e ainda é - importante para o outro desde a primeira troca de olhares. Todo mundo que já se apaixonou sabe da dificuldade de expressar em palavras o quanto um breve encontro pode ter de mágico. Outro mérito do filme é provar que verborragia não é, necessariamente, chatice. Antes do Pôr-do-Sol é sobrecarregado de diálogos, mas o fato dos personagens estarem se deslocando o tempo todo e terem Paris como um deslumbrante pano de fundo torna a produção incrivelmente dinâmica.


Também o desfecho deste filme deixa muita coisa no ar. A conclusão acaba sendo, mais uma vez, do espectador. E aí, parafraseando Jesse, vai depender de você ser um cínico ou um romântico.
 
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