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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Dilúvio Psicanalítico
Finalmente chega ao circuitão Água
Negra, primeiro filme rodado por Walter Salles na terra
do Tio Sam. Seguindo a atual febre do terror japonês
em Hollywood - a tendência já nos deu coisas
boas como O
Chamado e bombas como O
Grito -, o longa é uma refilmagem de Honogurai
Mizu No Soko Kara, produção nipônica de
2002 dirigida pelo mesmo Hideo Nakata da versão original
de O
Chamado. Lá fora, o filme foi bem de bilheteria
e mal de crítica. Aqui parece que vai pelo mesmo caminho.
Os críticos têm demonstrado uma certa má-vontade,
como se a excelência de Walter Salles como diretor de
produções mais, digamos, cerebrais o desqualificasse
para dirigir um projeto comercial. Uma implicância estranha,
mesmo porque Água
Negra está longe de ser um filminho de terror de
fácil digestão. Também não procede
a fofoca de que o cineasta estaria insatisfeito com uma montagem
feita à sua revelia, já que o próprio
declarou em recente entrevista que a interferência do
estúdio foi até pequena, se considerado o caráter
industrial da produção. Sem contar que a dita
edição foi realizada pelo brasileiríssimo
Daniel Rezende, responsável pela premiada montagem
de Cidade
de Deus e que já havia trabalhado com Walter Salles
em Diários
de Motocicleta.
Antes de mais nada, é preciso ter em mente que Água
Negra é muito mais um suspense psicológico
do que um filme de terror. Não há, em absoluto,
uma preocupação em "dar sustos" no espectador.
Pelo contrário. Certamente não vai ser um hit
entre o público adolescente, já que trata-se
de um filme adulto sem monstros atrás de portas. O
terror se instala de modo sutil, quase imperceptível,
tendo como base os traumas infantis da protagonista. E daí
evolui num crescendo, alimentado por fantasmas que todos conhecemos:
abandono e solidão. A história é centrada
em Dahlia Williams e sua filha Ceci. No decorrer de uma separação
litigiosa, Dahlia é obrigada a se mudar para um prédio
decadente na periferia da cidade por razões financeiras.
Sua nova vida é ameaçada pelo ambiente hostil
e sinistro, que abrange desde o zelador mal-encarado até
estranhos barulhos no andar superior e um vazamento que se
alastra pelo teto. Tudo converge para uma desestabilização
mental que pode fazer com que Dahlia perca a guarda de Ceci
e até mesmo a sanidade mental.
A perturbação que Dahlia vivencia é muito
mais profunda do que o fenômeno sobrenatural em si,
que age como um mero catalisador de uma situação-limite:
ela foi traída, abandonada, obrigada a se mudar para
um bairro afastado e ainda tem de lidar com um ex-marido opressor
que não está disposto a ceder um milímetro
para facilitar sua vida. Um bom exemplo de construção
da personagem é o fato de Dahlia chegar sempre adiantada
a seus compromissos, após vermos no prólogo
o modo como sua mãe a "esquecia" na escola constantemente.
Outro bom momento é quando o corretor mostra o apartamento
pela primeira vez e faz um esforço inacreditável
para usar termos positivos para descrever um lugar tétrico.
Em meio a este panorama, há a tal água negra
que inexplicavelmente pinga do teto. Uma infiltração
que penetra nas paredes, assim como o desequilíbrio
penetra em sua mente. Aliás, a água é
uma constante no filme: a chuva que parece não ter
fim é quase um personagem. Embora estejam presentes
no longa as marcas registradas do terror oriental - muita
água, cabelos, espíritos vingativos, maldições
localizadas - o filme se aproxima muito mais do estilo sóbrio
de M. Night Shayamalan (especialmente em O
Sexto Sentido) do que de seus similares japoneses. O modo
como o elemento sobrenatural é inserido na trama sempre
deixa em dúvida se é realidade ou cria de uma
mente sobrecarregada. O espectador agnóstico pode até
chegar à conclusão de que nada daquilo ocorreu
de fato. E não é só a questão
espiritual que deixa lacunas. Outras interrogações
ficam no ar: o ex-marido estava armando pra fazê-la
parecer louca ou foi uma conclusão errônea de
Dahlia? O espectador decide.
Claro que o ótimo elenco foi fundamental no resultado
final: Jennifer Connelly mostra plena maturidade artística
num papel difícil e cheio de sutilezas, sendo muito
bem coadjuvada pelos competentes John C. Reilly, Tim Roth
e Pete Postlethwaite. Destaque também é a pequena
Ariel Gade, que consegue uma interpretação intensa
sem cair na armadilha de parecer um adulto em miniatura. A
boa fotografia de Affonso Beato (outro brasileiro na equipe),
em especial nas tomadas que mostram todo o conjunto residencial
de cima, também contribui para fazer de Água
Negra um suspense de categoria. Um filme que pode até
não assustar no escurinho do cinema, mas permanecerá
no subconsciente do espectador depois que as luzem se acenderem.
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