Casa da Mãe Joana

por Roberto Cunha

Uma ode à malandragem
19/03/2010 0

Casa da Mãe Joana
envie
comentar
newsletter
twitter
rss
separar os emails por vírgulas
limitado em 600 caracteres

Faça o login, para usar essa ferramenta.

Uma comédia tem que ser engraçada. O mérito do filme é exatamente o sentido literal da expressão "casa da mãe Joana" que o diretor Hugo Carvana (O Maior Amor do Mundo) e o roterista Paulo Halm (Amores Possíveis) conseguiram infligir na história e ao seu ritmo. Com uma estrutura muito similar a de um sitcom, com poucas externas e muitas ações centradas em um apartamento, o filme prende o espectador e faz rir. Pode não ser uma obra-prima, na verdade o humor é raso, mas a missão está cumprida.
Casa da Mãe Joana mostra quatro pilantras que levam a vida numa boa por conta de pequenos golpes, mas um revés coloca a maré mansa dos caras de pernas pro ar. Surge uma dívida enorme para ser paga e aí o roteiro planta um festival de absurdos, um atrás do outro. O filme tem forte influência da chanchada brasileira e Carvana parece ter certa predileção em retratar uma visão cáustica da sociedade brasileira. Basta rever sua obra como diretor nos longevos Vai Trabalhar, Vagabundo (1973), Vai Trabalhar, Vagabundo 2 - A Volta (1981), produções premiadas com vários Kikitos, Se Segura Malandro(1978) e O Homem Nu. A abertura, com leve inspiração sonora em Ennio Moricone (A Pantera Cor-de-Rosa), é de bom gosto e já dá uma dica de que tiveram cuidado com a produção. Não é uma regra, mas boas aberturas, geralmente, denotam preocupação e isso pode ser bom. Um exemplo fácil de lembrar são as antológicas aberturas de James Bond.
O elenco, todo egresso da Tv, não compromete porque Paulo Betti (A Grande Família), José Wilker (Dona Flor e Seus Dois Maridos ), Pedro Cardoso (Redentor), Antonio Pedro Jorge e Laura Cardoso (Primo Basílio) são talentosos na telinha e na telona. A produção conta ainda com Agildo Ribeiro, ícone do humor brasileiro, numa participação sacana como um aposentado que é um tremendo draq queen (fazendo uma "boquinha" desnecessária para a caracterização), o eterno parceiro Cláudio Marzo (O Xangô de Baker Street) e mais Arlete Salles, Roberto Maya, Beth Goulart, Malu Mader (Sexo com Amor?), Fernanda Freitas e Juliana Paes. As barbaridades vividas pelos personagens fazem com que a história ganhe contornos surrealistas. O bom humor garante momentos de diversão e o pegador PR (Paulo Betti), em dado momento, parece carregar o filme nas costas, protagonizando cenas insólitas de um garoto de programa "bem passado" disposto a tudo para fazer dinheiro e livrar a turma da tal dívida.
O roteiro faz algumas citações como Psicose de Hitchcock na trilha sonora e gestual da divertida neura da mãe de PR e também a clássica série de tv "Jeanie é um Gênio" nos delírios do escritor Montanha (Antonio Jorge). Destaque para o som, que no cinema nacional sempre foi um problema e no filme de Carvana passa incólume. Dá para ouvir todo o barulho que os personagens fazem e suas falas. Portanto, sem gritar muito, dá para dizer que Casa da Mãe Joana é ponto positivo para o cinema brasileiro.