Alô, Alô, Terezinha!

por Roberto Cunha

BOTA A BOCA NO TROMBONE
21/03/2010 0

Alô, Alô, Terezinha!
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O assunto é Chacrinha e como já dizia o seu eterno bordão: “quem não se comunica, se trumbica”. Então para não deixar margem de dúvida, vai o aviso: o maior erro que você pode cometer é assistir este filme pensando que vai encontrar a biografia do velho guerreiro. Alô, Alô, Terezinha! é um documentário sobre os programas (Buzina, Cassino, Discoteca) que ele fez ao longo da carreira e também um canal de voz para dezenas de pessoas que por ali passaram e fizeram a história. Dele e delas. A abertura é muito bem humorada, mas emblemático mesmo é a primeira imagem de um cantor mascarado (quadro clássico), seguido do depoimento do rei Roberto Carlos, um cantor mascarado. Sem duplo sentido.

Nas seqüências seguintes o que se vê são cenas novas e de arquivo (algumas com pouca qualidade) que, certamente, vão matar a saudade de muita gente. Pessoas que passaram suas tardes, acompanhando as loucuras do coroa que era campeão de audiência (não tinha a concorrência de hoje) e soube tirar proveito disto na emissora, até então, líder absoluta. Para compensar quem se frustrou de assistir uma cinebiografia, Nelson Hoineff mostrou que fez um intenso trabalho de pesquisa e resgatou calouros que brilharam ou foram ofuscados pela "insanidade" do apresentador. Você vai ver anônimos que ganharam o indefectível Troféu Abacaxi ou que participaram do concurso do Homem Mais Feio do Brasil.

Chacrinha era uma ode à bizarrice. E sabia como ninguém gozar com a cara dos outros e relaxar. Assim, você pode se deliciar com um calouro cantando embromation, ouvir outro que, mesmo buzinado diversas vezes, não desistia e diz em alto e bom som: “Roberto Carlos é um bosta”. O diálogo entre calouros gagos é divertidíssimo e, por isso mesmo, por fazer rir, mostra como o ser humano tira proveito da desgraça alheia. Chacrinha parecia saber disto e ‘fazia a festa’. A melhor definição vem de Alceu Valença ao comentar o estilo de música Pastoril, de Pernambuco, com letras de duplo sentido e sentencia: “Ele era um velho libidinoso e sacana”. 

São muitos depoimentos na imensa colcha de retalhos. Gente que trabalhou ou que participou. E que deixam claro a força do hit parade da eterna figura barriguda e escandalosa. O grande barato foi ver a dicotomia reinante entre eles. Enquanto Jerry Adriani fala com muita naturalidade sobre as Chacretes e os casos que rolaram, Wanderley Cardoso, por sua vez, nega veementemente. Figuras emblemáticas da tv brasileira e, talvez, as mais desejadas durante um longo período, são elas que põem a boca no trombone para desmitificar as lendas sobre as dançarinas que requebravam diante das câmeras e protagonizaram os primeiros "closes ginecológicos" da TV brasileira, diga-se de passagem, durante o período da ditadura.

E não sobrou pedra sobre pedra. Apesar de algumas fazerem questão de se manter – ainda - no palco como figuras intocáveis (e que não tocaram em ninguém), outras, por sua vez, soltam o verbo, contando que ‘enfileiraram’ nomes conhecidos. Uma chega a dizer que Chico Buarque falhou na hora H e outra fala da aventura com o então presidenciável Collor de Mello. Cristina Azul põe preto no branco sobre ‘fazer programas’ e vaticina: “ligavam mesmo”. E Índia Potira não perde o rebolado para falar das drogas e da época do glamour. Algo que o próprio Chacrinha driblava a censura com frases soltas como “Alô, Helmar! Para de cheirarrr!”

Não faltaram também detalhes de bastidores como saber porque os sacos de farinha estouravam em cima da platéia ou de onde surgiu a ideia de jogar bacalhau. São muitos cantores (faltaram vários) dando seu depoimento e a cena de Biafra, propagada na internet, é hilária. Fábio Jr. lembra que foi calouro e da emoção de fazer parte daquela história. O sempre polêmico Agnaldo Timóteo esculacha João Gilberto e Nelson Ned fala das drogas, mulheres e do passado de glória. Emoção não falta. Lágrimas de ilustres desconhecidos até as de Vera Furacão que, no ritmo do apelido, escancara seu coração em depoimento sobre um amor não correspondido.

Entre as frases mais marcantes, destaca-se uma sobre Rita Cadillac, onde afirmam que a mais analfabeta de todas foi a que se deu melhor na vida. Sem (e com) duplo sentido. O que mais fez falta foi a ausência de depoimentos dos jurados. Fica a dúvida se Chacrinha teve ou não uma história de vida interessante, e fica claro que seus programas marcaram época. Goste você ou não, Alô, Alô, Terezinha! pode não ser o filme do ano, mas é um bom programa. “Terezinhaaaa! Uhuuu!”