Sétima Arte

400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado por Francisco Russo

Isto Aqui é um Pouquinho de Brasil
05/08/2010 1


Há quem pregue que o cinema nacional deveria evitar mostrar as mazelas do Brasil. "As pessoas de fora podem ver, é um desserviço ao país", dizem. Ledo engano. Em plena era da internet, chega a ser ingenuidade acreditar que o simples não exibir impede que estrangeiros saibam o que de ruim acontece por aqui. Além do mais, querer maquiar a realidade e fingir que por aqui tudo são flores é ainda pior. Gera alienação, ao invés de incentivar a melhoria. É claro que o cinema brasileiro não pode se dedicar apenas à função de denúncia. A diversidade necessária a uma sétima arte de qualidade possibilita a existência de filmes de variados tipos e gêneros. Mas mesmo estes, que colocam o dedo na ferida através da violência, têm sua função e não devem ser desprezados de antemão.
 
É claro que 400 Contra 1 apenas existe graças ao sucesso de Cidade de Deus, Carandiru e Tropa de Elite. Foram eles que abriram as portas para o cinema que retrata a pobreza mesclada à violência. Aqui o enfoque é em um fenômeno particular do Rio de Janeiro, mas que atinge várias outras capitais: o crime organizado. Mais exatamente o famoso e temido Comando Vermelho, que ganhou as manchetes no início da década de 80 graças aos ousados assaltos a banco que realizava e a extrema violência com que alguns de seus integrantes agiam.
 
O filme começa com um incessante vai e vem entre o início das décadas de 70 e 80. Cenas de William (Daniel de Oliveira, bem em cena) sendo levado para a prisão de Ilha Grande se mesclam às de assaltos, realizados com relativa facilidade. As rápidas mudanças de início chegam a cansar, mas aos poucos elas ocorrem em velocidade menor. A narrativa principal enfim se assenta e o espectador pode acompanhar com tranquilidade a história proposta.

O grande mérito de 400 Contra 1 é a fidelidade apresentada na caracterização de época. Seja na recriação do presídio de Ilha Grande, hoje desativado, nas roupas dos personagens e até mesmo através de seu linguajar. Gírias da época, como "dar um plá" e crocodilagem, são usadas com naturalidade. São pequenos detalhes que auxiliam o espectador a entrar no clima proposto e demonstram o cuidado da produção. Ponto para o filme.

Outro ponto positivo é a desglamourização do ambiente do banditismo. Não há superstars ou badalação em torno deles, apenas uma realidade dura e muitas vezes violenta. O filme se mantém fiel a isto, assumindo tons mais pesados a partir de sua metade justamente porque a história assim pede. A violência, mesmo a mais explícita, jamais é gratuita, fazendo jus ao momento retratado em cena.

Só que 400 Contra 1 não sai disto. Sem personagens cativantes, como Zé Pequeno ou Capitão Nascimento, nem um grande evento como o massacre do Carandiru, o filme se atém a narrar a história da formação do Comando Vermelho, com seu ideal de coleguismo aos semelhantes, e seu posterior desmantelamento. Interessante por ser parte da história do país, e semente para a situação de violência que aumentou cada vez mais no Rio de Janeiro nos anos seguintes, mas nada além disto. Ao término da sessão a sensação que fica é de um filme correto, bem feito mas sem grandes atrativos. Apenas razoável.

Comentários

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ISGonçalves em 28/09/2010

Parabéns mais uma vez Francisco Russo. Ainda não assistir 400 Contra 1, mas sou totalmente a favor do cinema de denúncia que o nosso cinema faz! Quero dizer que o cinema brasileiro não é só violência temos uma variedade de filmes com outras temáticas. O público brasileiro que generaliza achando que o nosso cinema é só Cidade de Deus, Tropa de Elite, Carandiru e outros. Fazemos tudo, o público brasileiro que só se direciona aos esta temática de filmes.



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